Dom Helder Câmara, mudialmente conhecido por seu trabalho em prol dos pobres e desfavorecidos, foi também um místico. Admiro profundamente a figura de Dom Helder. Poucos, muito poucos mesmo, se equiparam a ele em estatura espiritual no Brasil. Mais conhecido por seu trabalho em prol dos pobres e desfavorecidos, muita gente desconhece, por isso, o lado místico de Dom Helder. A mística da ação, predominante em sua pessoa, ofuscou um pouco outra faceta de sua espiritualidade, qual seja, a de um homem profundamente devotado à oração e, em especial, à Virgem Maria, a quem dedicou alguns belos poemas. Aproveito para transcrever hoje, no Sincronicidade, um desses poemas, publicado no belo livrinho intitulado Rosas para meu Deus, organizado em 1996 pela Ir. Maria do Carmo Pimenta. A publicação foi uma homenagem ao Jubileu Sacerdotal de Dom Helder Câmara.
Mentir é querer passar pelo que não se é. Mas passar por outro do que não se é – sem o querer – não é mentir. É levar ao engano. O que distingue o mentiroso daquele que leva ao engano, é que todo mentiroso tem a intenção de enganar – mesmo que não se chegue a crer nele. Ao passo que levar ao engano, necessariamente, é algo impossível de não se dar. O fato acontece mesmo.
Santo Agostinho
[Santo Agostinho. A verdadeira religião; O cuidado devido aos mortos. Tradução de Nair de Assis Oliveira. – São Paulo: Paulus, 2002, p. 87. (Patrística; 19)]
Há uma imagem para a literatura: a do sujeito solitário que, acomodado em sua poltrona, a atenção voltada para o livro aberto, lê em recolhimento e em silêncio. Imagem serena e íntima, que contraria a turbulência e o desnudamento que vigoram no mundo de hoje. Lugar da contemplação, do resguardo e da volta a si, cujo valor aumenta na medida em que a profundidade do mundo – esse mundo de superfícies velozes, de janelas que se abrem e fecham e de imagens loucas – cada vez mais diminui.
José Castello
[Castello, José. A literatura na poltrona. – Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 64]
Desapareceu-me uma página deste diário. Que dissera eu ali? Pode ser que fosse algo profundo, algo decisivo. Subitamente invade-me a inquietação de saber-me estranho a mim, daquilo que de melhor tenho em mim, e entendo a máxima estranha de Agostinho: há em nós algo mais profundo do que nós mesmos.
Constantin Noica
[Noica, Constantin. Diário filosófico. Tradução Elpídio Mário Dantas Fonseca; conferência com o texto romeno Cristina Nicoleta Manescu. São Paulo: É Realizações Editora, Livraria e Distribuidora Ltda., 2011, p. 9]
“Cumpriam-se os 21 dias. Vim para me despedir.”
Ergui os olhos, e vislumbrei, surpreso, a familiar figura de Dom Cristiano postado à minha frente. Tão absorto me encontrava na leitura do Diário Filosófico, quem nem percebera sua chegada. Ignorando minha surpresa, continuou:
“Estou me despedindo. Não mais retornarei. Não lhe sou mais necessário, Vasco”.
Suas palavras foram incisivas, claras, as frases pausadas, parece que tinham sido deliberadamente programadas.
Depois da última frase, ergueu a mão e sumiu. Fiquei atônito, sem entender bem o que acontecia. Aquela despedida abrupta me provocou sentimentos díspares e confusos, deixando-me atordoado.
Era como se tivesse levado uma grande pancada na cabeça. Senti o mundo girar. Estava tonto. Uma vertigem tomou conta de mim. Parece que eu tinha sido precipitado para fora da cadeira em que me encontrava sentado e jogado no chão. Era como se eu tivesse sido empurrado para fora de mim mesmo.
Depois, quando me senti reposiocionado na cadeira, a familiaridade do ambiente me acalmou. Senti vontade de chorar. Mas não o fiz. Não, não havia motivo para choro. Sabia que algo estava irremediavelmente perdido, mas isso não era motivo para lamentos. Na verdade, talvez fosse, isso sim, motivo para comemorar.
Mudar é preciso.
Caro amigo Desconhecido, o Arcano “O Sol”, que nos interessa aqui, é o arcano das crianças banhadas pela luz do Sol. Não se trata de encontrar coisas ocultas, mas de ver as coisas comuns e simples na luz do Sol e com um olhar de criança.
O décimo nono Arcano do Tarô, o arcano da “intuição”, é o da “Ingenuidade” reveladora no ato do conhecimento, ingenuidade que torna o espírito capaz de intensidade, de olhar não perturbado pela dúvida nem pelos escrúpulos que ela gera, e capaz da visão das coisas tais como elas são à luz eternamente nova do Sol. Esse arcano ensina a arte de receber a impressão pura e simples que revela, por si mesma – sem hipóteses e superestruturas intelectuais – o que as coisas são. Tornar a impressão “numinosa” é o objetivo do Arcano “O Sol”, o Arcano da intuição.
Compreendes, assim, caro amigo Desconhecido, que, falando do amor paterno, de seus dois aspectos, da prática da novena e do rosário etc., não nos afastamos do tema do décimo nono Arcano do Tarô, bem ao contrário, uma vez que penetramos justamente em seu coração. Porque esforçamo-nos para passar da “compreensão” do que é a intuição para o seu “exercício”, da meditação sobre o Arcano da intuição para o emprego desse Arcano.
[Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô / por um autor que quis manter-se no anonimato; prefácio de Robert Spaeman; apresentação de Hans Urs von Balthasar; (tradução Benôni Lemos). – São Paulo: Paulus, 1989, p. 538. – (Coleção Amor e psique)]
“Por que te deixas intimidar?” Uma voz peculiar, há muito não ouvida, porém, nunca esquecida, ecoou na biblioteca. Ergui os olhos e vislumbrei, diante de mim, a figura de Dom Cristiano. O velho monge voltava a me visitar. Eram pouco mais de dez horas e, na ocasião, encontrava-me absorto na leitura do Inventário das sombras.
Impactante! Eu não parecia estar neste mundo. A cena que vivi naquele momento me paralisou. Eu estava em pé diante Dela, imóvel, fitando a mais bela e formosa de todas as mulheres. Não tinha nada a dizer, porque estava fascinado por Ela, pela fita que Ela tinha nas mãos e a mensagem ali revelada. O que significaria aquela fita? Pedi explicações a uma pessoa ao meu lado, que me respondeu: “A fita é a sua vida, que tem nós, e a Virgem Mãe está mostrando que pode desatá-los!”
Denis Bourgerie
[Bourgerie, Suzel e Bourgerie, Denis. A ponderosa Nossa Senhora Desatadora dos Nós. 1ª. ed. – Campinas, SP: Verus, 2011, p. 9.]
Jorge [Georgious] vem de geos, que quer dizer “terra”, e de orge, “cultivar”, de forma que o nome significa “cultivando a terra”, isto é, sua carne. No seu livro Sobre a Trindade, Agostinho afirma que a boa terra pode estar tanto no alto das montanhas como nas encostas temperadas das colinas ou nas planícies. O primeiro tipo convém ao pasto, o segundo às vinhas, o terceiro aos cereais. De forma semelhante, o beato Jorge foi como a terra temperada devido à descrição do vinho da eterna alegria, foi como a terra plana pela humildade que produz frutos de boas obras. Jorge também pode vir de gerar, “sagrado”, e de gyon, “areia”, significando portanto “areia sagrada”. De fato, da mesma forma que a areia, Jorge foi pesado pela gravidade dos costumes, miúdo por sua humildade, seco pela isenção de volúpia carnal. O nome pode ainda derivar de gerar, “sagrado”, e gyon, “luta”, significando “lutador sagrado” porque lutou contra o dragão e contra o carrasco. Jorge ainda pode resultar de gero, que quer dizer “peregrino”, de gir, “cortado”, e de ys, “conselheiro”, porque foi peregrino em seu desprezo pelo mundo, cortado em seu martírio e conselheiro na prédica do reino de Deus.
Jacopo de Varazze
[de Varazze, Jacopo, Arcebispo de Gênova, ca., 1229-1298. Legenda áurea: vidas de santos. Tradução do latim, apresentação, notas e seleção iconográfica Hilário Franco Júnior. – São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 365.]
É evidente que o Senhor aceitou e assumiu as paixões naturais com o fim de consolidar a fé em uma encarnação verdadeira e não imaginária. Ao contrário, as paixões que existem em consequência do pecado e corrompem a integridade de nossa vida, ele as repudiou como indignas de sua divindade imaculada. Por isso o apóstolo Paulo escreveu que Cristo nasceu “na semelhança” de uma carne de pecado, e não em uma carne de pecado.
São Basílil, Epist. 261
[Citado em: Sgarbossa, Mario. Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente: com uma antologia de escritos espirituais. Tradução Armando Braio Ara. – São Paulo: Paulinas, 2003, p. 234.]
