Leituras da Bel

Coluna À procura da poesia: Quem tem medo de Baudelaire?

Por Talles Azigon (da página Poesia Brasileira)

Quando o assunto é poesia costumamos escutar alguns nomes recorrente. Rimbaund, Verlaine e, principalmente, Baudelaire. Esses nomes aparecem ligados a um movimento literário chamado Simbolismo. Todos esses nomes têm forte influência para poetas Brasileiros – como Mario Quintana, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Manoel de Barros.

Quem começa a se interessar pelo gênero Poema, acaba indo de encontro a esses nomes da literatura francesa. Até esse ponto tudo bem! porém algumas informações começam a se misturar, a nos tontear, gerando algumas confusões e, principalmente desistência, por nossa parte em procurar ler/entender a obra poética dessa galera

Como temos por objetivo maior dissolver essas barreiras de afastamento da poesia, resolvi trazer algumas informações para ajudar a lermos essas obras, mais especificamente a obra As flores do mal tida como um dos maiores clássicos da poesia ocidental.

Surge a seguinte dúvida:
“- Talles, por que eu não entendendo esses poemas?”

“para o meu gosto a palavra não precisa significar – é só entoar” Manoel de Barros

A frustração maior de quem entra no mundo dos poemas é não entender a tal “mensagem”. Esse desapontamento vem da escola. Lugar onde nos é dado um poema em uma prova, ou em um exercício com perguntas como: qual o tema do poema?

Aí mora o perigo. Não é que não precisamos entender um poema. Entender uma mensagem escrita nos estimula a continuar tentando desvendar outras mensagens. Entretanto, na natureza dos poemas encontramos muitas dimensões, uma sensível, uma lúdica, uma linguística. Logo, e pode parecer clichê, primeiro você sente o poema, o que ele te causa: estranheza, impacto, tranquilidade, excitação?

Depois se divirta com os poema, suas rimas ou não rima, o jogo de encaixe ou desencaixe contido nas palavras. Por fim, desvende o poema: o que há escondido naquelas palavras. Muitas das vezes quando um poeta fala fogo, o efeito é água. Por isso nos confundimos, mas até a confusão é o um dos grandes lances no poema.

“- Talles o que é simbolismo, por que dizem que Baudelaire é moderno se no Brasil Modernismo e Simbolismo são duas coisas diferentes?”

“E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.” Carlos Drummond de Andrade

Os acontecimentos são diferentes nos lugares diferentes. Isso realmente causa um grande nó na cabeça da gente, principalmente quando estamos no período da escola e precisamos saber deles para usarmos em provas.

Na França, o que vamos entender por movimentos modernistas é inaugurado justamente com o Simbolismo no livro As Flores do Mal do Baudelaire (na literatura).Ele é moderno, pois quebrou um monte de paradigmas até então estabelecidos. Antes desse livro, para a época, não era todas as palavras que poderiam estar dentro de um poema, nem todos os assuntos poderiam estar no poema, o poema tinha que falar de assuntos elevados, usar palavras elevadas, ser harmônico, ser “belo”.

As flores do mal quebra esse tabu, usa assuntos mesquinhos, palavras escatológicas, comparações impensáveis, compara o amor com uma carcaça apodrecendo. Foi muito chocante, nem todo muito aceitou, foi uma ruptura. No Brasil, nosso simbolismo foi muito mais ligado a forma, do que a esse espírito de ruptura.

“Mas, Talles, no romantismo já não faziam isso?”

Sim e não. Quando as pessoas que estudam e sistematizam a literatura, elas fazem enquadramento de obras em determinados movimentos, elas levam em consideração forma, conteúdo e localização temporal, traçando uma espécie de linha. Fazer isso é muito passível de questionamentos, e tudo bem. Literatura é arte, todos os conhecimentos sobre artes podem ser questionados, revisitados, acrescidos, não há absolutismo quando falamos de arte.

Estudar literatura baseado em movimentos é complicado justamente por esse fator. O tempo não é linear, muita gente é esquecida e excluída dos estudos literários por motivos políticos, sociais, de gênero. Ainda continuamos a usar esse método por uma questão pedagógica, por isso eu recomendo mais viver o livro e o/a autor/autora do que ficar pensando em movimento em que ele se insere ou não se insere.

Com o tempo, caso você se interesse, busque textos/vídeos explicando esses movimentos, saber essas informações nos ajudam a penetrar as camadas dos significados de uma texto/obra.

Ufa! Muita informação!

É assim mesmo, ninguém escala uma montanha simplesmente dizendo EU VOU ESCALAR UMA MONTANHA! Precisamos nos preparar, fisicamente, psicologicamente, ter equipamentos, condições e clima favoráveis, mas quando se consegue escalar a vista, o prazer, a superação, é tudo tão gratificante.

O livro de nosso assunto começa com esse poema :

Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade estão se evoca
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo que repugna, uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
– Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.

Então não tenham medo de se sujar. Vamos adentrar um universo poético desencantado, onde poderemos contemplar nossa sordidez, nossa mesquinhez. Corre na biblioteca, na banca, na livraria, ou aqui mesmo pela internet. Vai juntando todas as dúvidas e considerações e pode ir perguntando e comentando por aqui

Responder não sei se conseguirei, mas posso me comprometer que tentarei.

Abraços e até lá.

 

*Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

 

Recomendado para você