Leituras da Bel

Leia a crônica ‘Talvez não fosse de Deus’, do escritor João Paulo Matos

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Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Por João Paulo Matos
Podia ser uma cruzada, uma luta contra dragões-que-seriam-moinhos; um ato de heroísmo, um salvamento; uma tarefa hercúlea, im.pos.sí.vel a qualquer outra criatura de Deus. Mas não, não. Grande palco, a rua, passarela de vento escaldada no sol, aberto à vista de todos, ideal para o bem ou para o mal. Talvez não fosse de Deus, então, diriam. As pessoas dizem muitas coisas por medo ou ignorância. Triste.

Vejo-o há uns anos já. Esforço nenhum, difícil é não o notar, não é do tipo que se esconde. Um animal entre feras? Talvez. Ataque sutil, muitas vezes, sorri para o nada, fala sozinho, canta. É como se não estivesse por entre as pessoas neste mundo, diáfano em sua loirice forçada de diva, a flanar pelas calçadas do bairro. Alvo fácil, suspeito de sempre, destaque na língua monocórdia-filho-de-deus-papai-mamãe-filhinho do comadrio, demônio esconjurado por uma História que se tem posto ao avesso.

Muitas pedras à Geni, e o Zepelim solar incólume. Por que não assumir a culpa, então, se os pecados já foram ditados há tanto tempo, se carregará os seus e os dos outros, inclusive os do pai de família, os do bêbado, os do caminhoneiro esperando para descarregar os produtos do hipermercado, os do boyzinho? E se todos esses depois dirão que é aberração a ser curada, o mal a lhes destruir a família? Não é mais fácil vestir a caricatura, assumir o papel já guardado e garantido, ainda que coadjuvante? E se essa for a única opção?

Não, não há fuga possível, o que sobra é sempre ser o que se é, de alguma forma, em algum momento, nem que seja no estar consigo. E, se é de ser um alvo fácil, ele vestiu a mira no peito. Desconcerta antes que lho façam, desarma, e talvez o desfilar categórico seja uma revanche silenciosa sobre a hipocrisia de todo mundo que lhe estaria pronto a cuspir na face, uma pequena vitória de todo dia, um alento na fantasia do próprio ser, uma dose, dessas que descem quase voltando, pro medo que vem crescendo às claras, porque, na terra quente onde se mata Dandara, morrem outras tantas todos os dias.

E nisso, talvez, se faça o tão imenso desafio, epopeia anônima do quotidiano, possível a poucas grandes almas: o ser e o viver da realidade alucinada, sem moinhos, sem disfarce. Porque hercúleo é não ser filho de um deus e ainda assim ser castigado como um cristo.

*João Paulo Matos é formado em Letras, revisor textual e estudante de Direito. Quer escrever, tocar violão e assistir filmes de heróis.

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