Leituras da Bel

Leia “O peso do mundo”, texto do escritor cearense Bruno Paulino

O peso do mundo

*Por Bruno Paulino

Nesses dias, tenho ficado muito no meu quarto tentando ler. Mas, o sono sempre me vence, e volta e meia em meu pensamento vem à imagem de Gregor Samsa metamorfoseado num inseto depois que acordo de sonhos intranquilos. Sim, estou desassossegado leitor, com um desprezo do passado e uma impaciência para com o futuro.

Faz algum tempo que li o livro A metamorfose, e foi como ter chumbo entre as mãos (e na cabeça), a narrativa é triste e Kafka me deixou mal na época ao me fazer refletir sobre a terrível condição em que se encontra o homem e a mulher da modernidade. A leitura do livro condicionou essa transformação no meu jeito de olhar as relações humanas num mundo de angústia e valores pelo avesso. Época essa de imaginações excessivas, de anseios injustificados, em que a solidão e o companheirismo são paixões compatíveis e complementares. Onde, lê-se, escuta-se, deseja-se muito, e não se pode evitar decepções.

Então, lembro-me agora que nesse período, onde ao me deitar, e estando alienado a uma parte dessa “realidade’’ me sentir pesado na cama, como se o mundo estivesse a desabar sobre meus ombros, e diferente do Drummond, os meus ombros não suportavam o peso do mundo. E ele, o mundo, não pesava mais que as mãos de uma criança.

Pensando bem, é provável que a metamorfose que o livro iniciou em mim aquela época ainda não esteja completa. A literatura de Kafka é assim, nunca mais nos larga, por isso: ame-a ou deixe-a. Eu nunca mais a deixei, ou melhor, ela nunca mais me deixou.

Talvez não seja tão bom assim ficar muito tempo lendo deitado num quarto? Seria eu, amigo leitor, ao contrario do que cantava o velho Raul Seixas, no caso uma metamorfose não ambulante? Já que tudo que quero é justamente ficar no meu quarto e ler?

No fundo, no fundo, o que menos desejo agora é descobrir tais respostas.

Vou é cuidar de fazer alguma coisa, sem essa de ficar remoendo pequenas ou grandes questões, que o mundo já é pesado demais para os ombros humanos, imagine só se eu tiver que encará-lo metamorfoseado num inseto, tipo assim como o Gregor Samsa?

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Bruno Paulino
É cronista e aprendiz de passarinho
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