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Shel Silverstein cria uma fábula moderna em Leocádio, o leão que mandava bala

Ele não é o livro mais famoso de Shel Silverstein, autor dos badalados A Parte Que Falta e A Parte Que Falta Encontra o Grande O. Mas Leocádio, o leão que mandava bala é certamente um dos livros mais bonitos do autor. Na narrativa, recém-publicada no Brasil pela Companhia das Letras, o autor conta a história de Leocádio, jovem leão criado na floresta, que decide buscar novos mundos. Disposto a encontrar uma nova habilidade, ela impressiona um caçador – que também é dono de empreendimentos de entretenimento! – e parte para a cidade grande.

É lá que Leocádio conhece as belezas da vida moderna: a comida, o banho de banheira, o salão de beleza, os costureiros, os restaurantes, os mimos e outros tantos dispositivos. Shel narra com muita graça o momento de encontro de Leocádio com esse novo estilo de moradia. É um livro que ganha pela lição, mas, sobretudo, pela graça existente no protagonista. Ele se torna um homem-leão. Tem a forma de bicho, mas os hábitos de gente. Conversa com as pessoas, mas mantém o seu estilo animalesco da floresta. Talvez, ao fim da narrativa, Leocádio consiga se mostrar mais humano: tem tudo, mas sente uma falta sem limites de algo que não consegue explicar. Que sentimento é mais humano do que esse?

O autor já havia falado sobre esse tema em outras obras. Shel se tornou um autor famoso e querido no Brasil após o livro A Parte Que Falta ser elevado até a categoria de “sucesso editorial” a partir de um vídeo da influencer Jout Jout. Leia mais sobre ele aqui!

Em Leocádio, o leão que mandava bala nós encontramos uma narrativa diferente. Para começar, os textos são mais longos e mais concentrados. Shel não parece querer apresentar uma lição para o leitor – uma marca quase irrefutável em A Parte Que Falta. Leocádio existe por ser engraçado, espirituoso e um leão diferente. Depois, a condição de “leão que sabe atirar” é um tanto controversa. Leocádio aprende a nova habilidade movido pela curiosidade e se torna uma rica atração na cidade grande. Afinal, como um leão sabe atirar?

Shel, novamente, brinca com a nossa imaginação. Leocádio sabe atirar pois nós conferimos esse poder a um ser criado na floresta. Contra todas as expectativas, ele soube usar os recursos existentes para desenvolver a habilidade. Até a falta de munição é sabiamente explicada pelo autor. Como pacifista, me incomoda a utilização da arma. Mas, claro, esse uso faz parte do universo criado pelo escritor e não precisa ser contestado. E creio que as crianças – e os adultos! – que farão a leitura do livro vão entender a apropriação que o autor faz do instrumento. Leocádio pega aquilo que lhe destrói e transforma em uma nova vida. É um modo bonito de transformar o ódio – representado pela arma – em algo bom – a mudança de vida.

Shel Silverstein

O norte-americano Sheldon Allain Silverstein, Shel Silvertein, nasceu em 1930, na cidade de Chicago. Em 1961, estreou com o romance Uncle Shelby’s ABZ Book, que despertou a curiosidade de um editor de livros infantis. Dois anos depois, Silverstein lançaria sua primeira publicação para crianças. Shel escreveu livros que se tornaram clássicos. O autor morreu na década de 1990, aos 66 anos.

Serviço
Leocádio, o leão que mandava bala
Autor: Shel Silverstein
Editora Companhia das Letras
Selo Companhia das Letrinhas
Preço sugerido: R$ 44,90

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