Plínio Bortolotti

Collor e Dilma: duas histórias e um mesmo destino

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Texto para a editoria de Política, edição de 1º/9/2016 do O POVO.

Dilma x Collor
Plínio Bortolotti

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito após a redemocratização do país, não concluiu seu mandato, interrompido por um impeachment em dezembro de 1992, dois anos após ter assumido a Presidência da República.

A reeleita presidente Dilma Rousseff, teve o mesmo destino, pouco mais de um ano após iniciar o seu segundo mandato. Assim, dos quatro presidentes eleitos após o fim da ditadura militar – Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef – dois foram defenestrados do cargo.

É inevitável que se busquem comparações, ainda mais porque Collor de Mello – depois de recuperar os seus direitos políticos – foi eleito senador por Alagoas. A fortuna política transformou-o de réu em julgador, tendo cravado ontem seu voto pela condenação de Dilma Rousseff, do PT, partido que comandou as principais manifestações pelo seu impedimento, 24 anos atrás.

Mas, pelo menos em um quesito, Dilma e Collor se parecem: no desprezo olímpico pelos rapapés planaltinos, com seus tapinhas nas costas, convites para encontros sociais e obrigatórias demonstrações de intimidade com baixo e alto cleros do parlamento. É o famoso “carinho”, que a maioria dos políticos adora, para depois exibir em suas “bases” o quanto é amigo dos poderosos.

No pacote está incluída – uma grande injustiça ao Pobrezinho de Assis – a mais conhecida oração de São Francisco: “É dando que se recebe”. São questões que fazem parte dos maus costumes políticos, mas que um mandatário é obrigado a cultivar, se quiser sobreviver na selva brasiliense.

Juntando-se o desdém pelos vínculos pessoais com um vezo autoritário, que despreza as necessárias negociações políticas com os parlamentares, cria-se um caldo que começa a ferver até chegar ao ponto de explodir a panela de pressão. (Até onde dá pra mover-se de modo republicano em tal pântano é questão irrespondida.)

Nessa toada, era inevitável que Dilma perdesse apoios, como Collor perdeu. A razão do impeachment da presidente não foram as “pedaladas” ou os “decretos de crédito”, mas o isolamento político que ela mesma procurou, a ponto de não conseguir ao menos 27 votos entre os senadores para livrar-se do impedimento.

Quanto às diferenças, uma das mais importante entre as duas situações, é que Collor estava completamente isolado, sem nenhum apoio na sociedade. Os principais setores sociais, as classes médias, sindicatos, movimentos populares e a imprensa, formaram uma sólida frente em oposição ao seu mandato. Sintomaticamente, um de seus apelos mais lembrados, é a sua exclamação: “Não de deixem só”. Dilma reúne em torno de si alguns dos principais movimentos populares e as manifestações de rua em seu favor, ainda que menores, rivalizaram com as de seus opositores.

A respeito do processo em si, o de Collor foi muito mais rápido do que transcorreu com Dilma. O de Collor foi finalizado em três meses – de setembro a dezembro de 1992; com Dilma foram nove meses, a contar de dezembro do ano passado. Contra Collor pesavam acusações de beneficiar-se pessoalmente de ilícitos; suspeitas que não existiam sobre a presidente deposta.

Collor perdeu os direitos políticos por oito anos, diferentemente de Dilma, que livrou-se dessa pena. Quando ficou decidido o “fatiamento” da votação, ele lembrou que, no seu caso, o plenário do Senado decidiu manter o julgamento e cassar seus direitos políticos, mesmo depois de ele ter renunciado ao mandato.

O senador também disse que o impeachment de Dilma respeitou a Constituição, mas considera que o seu impedimento foi um golpe. A avaliação dos petistas é idêntica, em ordem inversa.

Para resolver a pendenga, talvez seja necessário recorrer a outra frase de Collor, que enfeitava camisetas que costumava usar em seus exercícios físicos: “O tempo é senhor da razão”.

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