Plínio Bortolotti

Quem é Bolsonaro? Um democrata ou um candidato a ditador?

Na edição de ontem (28/11/2019) do O POVO publiquei o artigo Cúmplices do governo Bolsonaro a respeito do apelo do ministro da Economia, Paulo Guedes, a um novo AI-5, caso houvesse manifestações contra as medidas que ele pretende implementar: “Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?”, disse ele em entrevista a jornalistas em Washington, onde estava para se reunir com investidores.

AI-5
O ato institucional citado por Paulo Guedes, editado em 1968 pela ditadura militar, fechou o Congresso, acabou com as garantias individuais, garroteou a imprensa, intensificando a perseguição, prisões, tortura e morte contra opositores do regime.

Depois, Guedes voltou atrás, fez juras de amor à democracia, repetindo o padrão bolsonarista de fazer ameaças, procurando depois amenizá-las depois do estrago feito.

ILUSIONISMO
Na análise que fiz no artigo defendo que Guedes revelou um truque de ilusionismo da suposta dualidade do governo: de um lado a obscuridade de Bolsonaro, com seus preconceitos, sua truculência e sua linguagem rebaixada. De outro o iluminado Posto Ipiranga, moderno, aberto para o mundo, limpinho e cheiroso, o homem certo para dar um novo ânimo à economia brasileira. 

ECONOMIA É POLÍTICA
Mas o que ficou evidente com as palavras de Guedes é que não há diferença entre ambos, existindo apenas um atalho no governo Bolsonaro, no qual a economia é a continuidade da linha política ou vice versa. Da mesma forma que a guerra é a continuação da política por outros meios.  

 

DÉSPOTA
Mas é claro que a maioria dos dos propagadores da dualidade do governo sempre foi um bando de hipócritas, que sabiam (e sabem) exatamente quem é Bolsonaro. O capitão nunca escondeu seu amor pelos déspotas, seu doentio entusiasmo pela tortura, sua aversão à democracia e à diversidade. Essa pústula verde do ódio está grudada em seu coturnos desde que iniciou a sua carreira política como um inepto tenente do Exército.

PERFIL
Fiz levantamento declarações de Bolsonaro e de seus filhos desde 1999. Observe como é fácil, a partir desses dados, traçar um perfil do presidente.

O que você vê? Um democrata? Uma político a respeitar as instituições e submeter-se à democracia? Ou um candidato a ditador, com ânimo de  impor a sua vontade como se fosse uma verdade universal?

OS BOLSONAROS E SUAS DECLARAÇÕES

1999 – Maio. “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando pelo FHC, não deixar ele pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.” (Jair Bolsonaro, em entrevista ao programa Câmera Aberta, na TV Bandeirantes)

1999 – Maio. “Pau-de-arara funciona. Sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável também.” (Jair Bolsonaro, no mesmo programa)

1999 – Maio. “Não há menor dúvida, daria golpe no mesmo dia! Não funciona! E tenho certeza de que pelo menos 90% da população ia fazer festa, ia bater palma, porque não funciona. O Congresso hoje em dia não serve pra nada, só vota o que o presidente quer. Se ele é a pessoa que decide, que manda, que tripudia em cima do Congresso, dê logo o golpe, parte logo para a ditadura.” (Jair Bolsonaro, no mesmo programa)

1999 –  Junho. “A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem. Sou a favor, sim, a uma ditadura, a um regime de exceção, desde que este Congresso dê mais um passo rumo ao abismo, que no meu entender está muito próximo. (Jair Bolsonaro, em discurso na Câmara dos Deputados)

2008 – Dezembro. “Eu louvo o AI-5.” (Jair Bolsonaro, em uma sessão no plenário da Câmara às vésperas de a edição do AI-5 completar 40 anos). 

2010 – Março.  “(O golpe militar) deu início a 20 anos de glória, período em que o povo gozou de plena liberdade e de direitos humanos.” (Jair Bolsonaro, no 46ª aniversário do golpe civil-militar no Brasil).

2013  – Fevereiro. “(O golpe de) 1964 foi uma imposição popular. A história está aí. Quem fala em ditadura militar não quer ler a história.” (Jair Bolsonaro)

2016 – Julho. “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (Jair Bolsonaro, entrevista à rádio Jovem Pan).

2016 – Março. “Devemos, sim, comemorar esta data (dia do golpe militar). Afinal de contas, foi um novo 7 de setembro (…) O Brasil merece os valores dos militares de 1964 a 1985.” (Jair Bolsonaro, em vídeo divulgado pelas redes sociais, em 31/3/2016).

2016 – Agosto “Nesse dia de glória para o povo tem um homem que entrará para a história. Parabéns presidente Eduardo Cunha. (…) Em memória do coronel Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, o meu voto é sim.” (Discurso de Jair Bolsonaro em 31/8/2016, dia do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que aos 22 anos de idade, foi presa e torturada por Brilhante Ustra. 

2016 – Novembro. “Sou capitão do Exército, conhecia e era amigo do coronel, sou amigo da viúva. (…) o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra recebeu a mais alta comenda do Exército, a Medalha do Pacificador, é um herói brasileiro.” (Jair Bolsonaro, no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados) Brilhante Ustra foi um dos mais cruéis torturadores da ditadura, levava filhos de presos para verem os pais sendo supliciados).  

2018 – Julho.  “Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não.” (Deputado Eduardo Bolsonaro) 

2018 – Julho. “Não houve golpe militar em 1964.” (Jair Bolsonaro, programa Roda Viva da TV Cultura)

2018 – Setembro. “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein? Vamos botar esses picaretas para correr do Acre.” (Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral para presidente, usando o tripé de uma câmera de televisão como se fosse uma metralhadora)

2018 – Outubro. “Eu mostrei, e hoje em dia grande parte da população entende, que o período militar não foi ditadura, como a esquerda sempre pregou.” (Jair Bolsonaro, entrevista ao Jornal da Band, da TV Bandeirantes)

2018 – Julho. “Ninguém tem prova de nada (…) Suicídio acontece, pessoal pratica suicídio.”  (Jair Bolsonaro Referência ao jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975, dentro de um quartel do Exército em São Paulo, entrevista ao programa “Mariana Godoy Entrevista”, da RedeTV!)

2018 – Maio. “Errar, até na sua casa, todo mundo erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece.” (Jair Bolsonaro, sobre documento em que o chefe da CIA afirma que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) aprovou a continuidade de uma política de “execuções sumárias” de adversários da ditadura militar)

2019 – Fevereiro. “Isso tudo não seria suficiente se não tivesse, do lado de cá (no Paraguai), um homem de visão, um estadista, que sabia perfeitamente que seu país, o Paraguai, só poderia prosseguir, progredir, se tivesse energia. Aqui também a minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner” (Jair Bolsonaro, vem isita à Hidrelétrica de Itaipu, elogiando o sanguinário ditador paraguaio.)

2019 – Março. “E onde você viu uma ditadura entregar pra oposição de forma pacífica o governo? Só no Brasil. Então, não houve ditadura.” (Jair Bolsonaro, entrevista no programa Brasil Urgente, TV Bandeirantes)

2019 – Março. “Num dia como o de hoje o Brasil foi liberto. Obrigado militares de 64! Duvida? Pergunte aos seus pais ou avós que viveram aquela época como foi? (Eduardo Bolsonaro, 3/3/2019, em post no Twitter)

2019 – Julho. “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele.” (Jair Bolsonaro, irritado com a atuação do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, cujo pai despareceu, depois de ser preso durante a ditadura militar)  

2019 – Julho. “Ela (Míriam Leitão) estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa em Vitória. E depois conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada, sofreu abuso etc. Mentira, mentira.” (Jair Bolsonaro, mentindo sobre a jornalista, presa e torturada pela ditadura, aos 19 anos de idade. Ela estava grávida, mas torturadores deram-lhe tapas e chutes, que abriram-lhe a cabeça; foi obrigada a ficar nua na frente de 10 militares. Trancaram-na em uma sala escura com um jiboia para aterrorizá-la – O Globo, 19/8/2014)

2019 – Setembro. “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos… e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!” (Carlos Bolsonaro, em postagem no Twitter.

2019 – Setembro. “Diz ainda (Michelle Bachelet) que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece de que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época.” (Jair Bolsonaro referindo-se ao general-brigadeiro da Força Aérea, Alberto Bachelet, pai de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e atualmente alta comissária de Direitos Humanos da ONU. Ele foi torturado e morto pela ditadura militar de Augusto Pinochet.) 

2019 – Outubro. “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5.” (Deputado Eduardo Bolsonaro, entrevista à jornalista Leda Nagle.)

2019 – Novembro. “Temos uma Lei de Segurança Nacional que está aí para ser usada.” (Jair Bolsonaro, ameaçando Lula)

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Fiz levantamento como este para mostrar a possível relação da família Bolsonaro com as milícias. Pode ser visto aqui

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