Sincronicidade

Por amor a leitura

como um romanceAmar é, pois, fazer dom de nossas preferências àqueles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invisível cidadela de nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos. Quando um ser querido nos dá um livro para ler, é a ele quem primeiro buscamos nas linhas: seus gostos, as razões que o levaram a nos colocar esse livro entre as mãos, os fraternos sinais. Depois é o texto que nos carrega e esquecemos aquele que nos mergulhou nele: toda a força de uma obra está, justamente, no varrer mais essa contingência! Entretanto, com o passar dos anos, acontece que a evocação do texto traz a lembrança do outro; certos títulos se transformam, então, em rostos.

Daniel Pennac

[Pennac, Daniel. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. – Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 84.]

Retornando de uma visita ao Museu de Arte da UFC, onde fora com o objetivo de visitar a exposição de Descartes Gadelha inspirada n’Os Sertões, de Euclides da Cunha, passei pela livraria Arte e Ciência, à procura de alguns livros publicados pela editora Casa da Palavra. Essa editora tem publicado excelentes obras dedicadas especificamente ao livro. Indaguei ao Vladimir, proprietário da Arte e Ciência, se ele vendia os livros da Casa da Palavra. Depois de me mostrar algumas edições, dirigiu-se a uma prateleira e, tirando de lá um pequeno livro de capa amarela, inquiriu-me: “Vasco, você já leu este livro?” Como eu respondesse negativamente, ele completou: “Pois leia! Tenho certeza de que você vai gostar!” Peguei-o, dei uma rápida folheada e mandei incluí-lo entre os demais que estavam separados para mim sobre o balcão.

Chegando em casa, naquela manhã mesmo iniciei a leitura do livro recomendado por Vladimir: Como um romance, de autoria do escritor e professor francês Daniel Pennac. Foi com relutância que fechei o livro quando tive que sair para trabalhar. À noite já estava novamente me deleitando com o texto de Pennac. Concluí a leitura na manhã seguinte.

Daniel Pennac, nascido em 1944, é professor de francês há mais de vinte anos, atividade que divide com o ofício de escritor, tendo publicado seu primeiro livro em 1973. O tema do livro Como um romance  é um assunto que o autor conhece muito bem: a leitura. O livro é um ensaio escrito de forma deliciosa, ao longo do qual Pennac vai discorrendo em forma de diálogo sobre o aparentemente simples e, no entanto, controvertido hábito da leitura.

O livro é dividido em quatro partes. A primeira parte, intitulada “O nascimento do alquimista”, aborda o despertar da criança para a leitura. O título atribuído a essa parte não poderia ter sido mais bem escolhido. De fato, o leitor é um alquimista, uma vez que o contato com o texto lhe permitirá operar transmutações, a exemplo do que faziam os alquimistas. Duas frases se destacam no texto que abre essa parte. A primeira é aquela em que Pennac afirma: “O verbo ler não suporta o imperativo” (p. 13), e a segunda em que escreve, como num lamento: “O livro é sagrado, como é possível não gostar de ler?” (p. 13).

As duas frases servem como motes para os argumentos que o autor desenvolverá a partir de então, calcados no pressuposto de que ler é, antes de tudo, uma atividade prazerosa, daí por que o ato de ler não pode ser imposto. As três outras partes do livro são: “É preciso ler (O dogma)”, “Dar a ler” e, por fim, “O que lemos, quando lemos”. Na última parte, o autor apresenta o que chama de “Direitos imprescritíveis do leitor”: 

 1. O direito de não ler; 2. O direito de pular páginas; 3. O direito de não terminar um livro; 4. O direito de reler; 5. O direito de ler qualquer coisa; 6. O direito ao bovarismo (direito textualmente transmissível); 7. O direito de ler em qualquer lugar; 8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9. O direito de ler em voz alta; 10. O direito de calar (p. 141ss.).  

Como um romance é um livro que deveria ser lido por todos os pais cujos filhos ainda estão sendo iniciados na leitura, bem como por todos os professores, seja de crianças ou de adultos. Um dos seus mais belos trechos é aquele em que o autor, se referindo às historinhas que os pais lêem para as crianças antes de dormir, compara a leitura a uma prece:

A intimidade perdida…

Pensando bem, nesse começo de insônia, aquele ritual da leitura, toda noite, à sua cabeceira, quando ele era pequeno – hora certa e gestos imutáveis – tinha um pouco de prece. Aquele súbito armistício depois da barulhada do dia, aqueles reencontros fora de todas as contingências, o momento de recolhido silêncio antes das primeiras palavras do conto, nossa voz enfim igual a ela mesma, a liturgia dos episódios… Sim, a história lida cada noite preenchia a mais bela das funções da prece, a mais desinteressada, a menos especulativa e que não diz respeito senão aos homens: o perdão das ofensas. Não se confessava falta alguma, não se pensava na graça de um quinhão de eternidade, era um momento de comunhão entre nós, a absolvição do texto, um retorno ao único paraíso válido: a intimidade. Sem saber, descobríamos uma das funções essenciais do conto e, mais amplamente, da arte em geral, que é impor uma trégua ao combate entre os homens.

O amor ganhava pele nova.

Era gratuito (p. 33).