Artesanato da Mente

Antes de a morte chegar, ainda vamos abrir muitas portas

Esses dias li um texto no facebook do meu amigo João Vale Neto, tutor do CEBB (Centro de Estudo Budistas Bodisatva) que considero necessário pra esses tempos tão sombrios e de tantas incertezas quanto ao futuro. Leiam com toda a atenção!

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Todos passamos por algum momento da vida onde achamos que as coisas não vão ter jeito. Geralmente acontece na infância, quando percebemos que por mais fortes ou poderosos sejam nossos pais, eles não sabem de tudo. Olhamos para isso e vemos que não vamos ter condições de resolver “o que não tem jeito” justamente porque somos pequenos, sem muita capacidade ou recursos. Então, a impotência surge e, com ela, a falta de energia do corpo. Uma sensação de porta trancada e não sabemos onde está a chave. É assim que vão surgindo outras partes de nós: impotentes, depreciadas, melancólicas. Todas elas vem nos socorrer diante daquilo que “não tem jeito”. Quanto mais eu não tiver necessidades, menos vou precisar dar um jeito. Por isso, melhor ser incapaz, sem valor, logo, já que nada tem jeito. E assim a impotência se torna uma constância na nossa vida.

Por outro lado, o corpo tenta escapar desse lugar, tenta trazer uma resposta de vida e faz isso com surtos ou disparos de energia que terminam virando crises de choro, ansiedade, compulsões, fugas, obsessões…tudo, sem, exceção, faz parte da dança do corpo em sua busca por regulação.

A pandemia – e no caso do Brasil, o desgoverno – é um convite duplo à impotência e às compulsões. Porque trazem as memórias de quando não foi possível “dar um jeito” e, inevitavelmente, queremos criar alternativas para não ter que reviver os buracos sem fundo da nossa infância.

Por isso, se você tiver crises de choro, se ver compulsivo demais, se ver perdida no Instagram, uma ansiedade difusa estiver percorrendo seu dia-a-dia, não se preocupe. Seu corpo está tentando dar um jeito, está tentando fazer o melhor dele que é sair do estado de impotência diante do caos que estamos vivendo.

Quanto mais entender que este é um movimento biológico em busca de regulação, menos você vai se identificar de forma fechada seja com os estados de impotência seja com as tentativas de trazer energia de volta.

Ambos são lugares que podem nos aprisionar: acreditar que “não há jeito” – e não sou capaz de conduzir minha vida por mim – ou acreditar que preciso viver na catarse ou nas minhas repetições obsessivas para poder ter paz.

Mais do que nunca, é preciso abrir os olhos para criar uma linha de consciência capaz de integrar nossos corpos em uma visão mais ampla, capaz de lidar com a conjuntura política, social e natural.

“Meu corpo deprimiu porque ali era muito difícil. Meu corpo teve crises ansiosas porque queria sair do sentimento de falta de capacidade.”

Não é sobre minhas escolhas, é sobre entender a minha resposta biológica natural a situações de crise.

Isso nos absolve e nos ajuda a abrir os olhos.

Ao abrir os olhos, lembramos que o que quer que tenha acontecido na nossa infância, já passou.

Crescemos, sobrevivemos. E demos o nosso jeito.

Criamos a nossa rota, nosso caminho.

E a morte vai vir, é claro, para todos, mas, antes disso, vamos abrir muitas portas.

João Vale Neto

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Suas palavras são tão tocantes que nem preciso acrescentar muita coisa. Só reforço o que ele diz com relação à superação dos muitos sofrimentos que vivenciamos desde crianças e que vão nos fortalecendo mais e mais.

Se estamos vivos em 2021 é porque superamos tudo o que veio antes. Pense comigo! Estamos há 1 ano inteiro vivenciando uma pandemia. 365 dias de isolamento social desestabiliza as emoções até mesmo dos monges budistas mais avançados, quanto mais de nós, pessoas que ainda estão engatinhando nesse processo de elevação espiritual!

Desejo a você muita força, esperança, fé, amor! Saiba que estamos juntos. Ninguém está sofrendo sozinho. Ninguém! São 7,8 bilhões de seres humanos passando por um período de muitas provas e é olhando uns para os outros, juntando nossas mãos de maneira simbólica que atravessaremos tudo isso!…

Que a gente continue abrindo muitas portas, principalmente dentro de nós mesmos!

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P.S. Para os que quiserem ouvir a leitura desse belo texto, fiz questão de também gravar um podcast no meu canal com a sua leitura. Ouçam e compartilhem com seus amigos OK?

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