Discografia

Uma falsa retrospectiva musical de 2020

Tão bom quanto descobrir músicas e artistas novos é redescobrir faixas que estavam ali perdidas no meio dos arquivos esperando sua hora de brilhar. Assim sendo, seguem algumas velhas canções que voltaram a chamar a atenção deste pretencioso colunista ao longo de um ano sem shows, mas com muitas audições

Elizeth Cardoso e Baden Powell – Apelo

Elizeth, de quem aproveitei para ler a biografia escrita por Sérgio Cabral, é a verdadeira realeza da canção nacional. No dueto com o violonista maior do Brasil, gravado nos anos 1980 no programa Chico&Caetano (disponível no Youtube), eles vão ao ápice da dramaticidade e da perfeição interpretando esta parceria de Baden com Vinicius de Moraes. O violão de influência flamenca, as luzes pálidas, o olhar atento de Chico Buarque, os gestos contidos, o minimalismo tão expressivo e a nota solitária que Baden dispara nos 3 minutos e 25 segundos fazem desse vídeo ouro puro.

Simone – Desgosto

Essa é pesada. Gravado em “Quatro paredes”, segundo disco de Simone, esse lamento tristonho, capaz de derrubar um bruto logo as primeiras frases, é uma composição de Thereza Tinoco. As razões pra tanta melancolia não são reveladas, mas a baiana canta como quem olha pro precipício. Ouça com cuidado.

Ithamara Koorax – My reverie/ Stranger in paradise

Há alguns anos, Ithamara me presenteou com um disco de influências eruditas e pediu que eu ouvisse com atenção. “Opus clássico” é muito sofisticado e é tão tecnicamente perfeito que até exagera. Mas o disco encerra com “Stranger in Paradise/ My reverie”, que conta com agudos lancinantes e o trombone mágico de Raul de Souza. Impecável.

Belchior – Seixo rolado

Não sei o que é mais bonito nessa música. A interpretação forte e convincente de Belchior, como quem quer te convencer de cada frase? Ou a letra, erótica, imagética, clara e subliminar? Olha isso: “No corpo, rosa dos ventos, tudo é norte, tudo é sul. Se oriente, se ocidente. Toda cor corre pro azul”. E ainda tem o arranjo que arrasta um blues e vai ganhando ritmo! É do disco “Objeto direto” (1980).

Fátima Guedes – Celeste

Fátima Guedes é esplêndida, seja cantando ou compondo. Nesta faixa de inspiração erudita, com lindos piano e cordas, ela parece se despedir de alguém, falando da morte com uma delicadeza cortante. “Hoje és na terra plantada essa flor feita. Esse fruto maduro pra colheita. O aroma e o sabor do que é divino”. Sendo do disco “Lápis de cor” (1981), ela tem algo de infantil. Tão bonita que dói.

Quarteto em Cy – Asas

No disco “Tempo e Artista” (1994), o dueto do Quarteto em Cy com Tom Jobim em “Imagina” é tão lindo que eu nunca prestei atenção na faixa anterior. “Asas”, de Sônia Hirsch, é uma valsa tão leve e inspiradora que sugere uma dança. Tem um bandolim que tensiona e uma flauta que alivia, enquanto as vozes ficam rodando entre solos e coros.

Simplesmente feliz – Gonzaguinha

Gonzaguinha sempre foi uma figura amargurada, mas insistiu em cantar a felicidade. Nessa música densa, do disco “Caminhos do coração” (1982), um louco insiste em gritar pelas ruas sobre a beleza das estrelas, teima em acreditar na descoberta do amor, na realização nas coisas simples e na importância do trabalho. Mas é um louco, lembrem.

Txim plan – Jorge Mautner

Em 1976, Jorge Mautner buscou o sucesso radiofônico num disco mais pop, “Mil e uma noites de Bagdá”. Não conseguiu o sucesso, mas deixou mais algumas belas canções. Uma delas é essa, cujo título é a onomatopeia de um mergulho.

Androginismo – Almério

Entre os lançamentos de 2020, Almério lançou “Desempena Ao Vivo”. Entre as faixas, tem uma versão “Androginismo”, lançada pela banda Almôndegas há mais de 40 anos. A versão do pernambucano é impactante como o protesto que ele faz contra a violência sofrida por LGBTQI+.

How could I fall – Simply Red

Mick Hucknall é uma das maiores vozes do pop internacional e ainda tem uma característica ímpar: seja em estúdio ou ao vivo, a voz é a mesma. Nessa faixa, as mudanças de um clima mais escuro para algo mais solar, e longos espaços para solos. A letra é minúscula, e o ruivo canta e improvisa com muita segurança e suingue.

Zé Manuel – Do meu coração nu

Embora ainda pouco conhecido, esse pernambucano de Petrolina já tem um belo disco autoral e outro em que gente como Elba Ramalho, Fafá de Belém e Ana Carolina cantam suas músicas. Em seu novo disco, ele passa em revista a história do negro no Brasil, desde a escravidão até a religiosidade. E faz isso combinando protesto, dor e lindas melodias. “Pra iluminar o rolê” traz certo humor no ritmo abolerado, mas falando sobre o medo que os negros têm de sair de casa e não voltarem. Merece estar entre os melhores discos do ano, se não o melhor.

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