Discografia

De Vilas Boas e de Braga: Pra que serve a música?

Edinho VIlas Boas

Edinho Vilas Boas e Yayá Vilas Boas ( Família Vilas Boas )-  Diga lá coração/Espere por mim morena

Por Chico Araujo, poeta, professor e colunista compulsório deste Blog

Em diálogo que tive com Edinho Vilas Boas por meio do WhatsApp em 29 e 30 de abril, nos reportando à composição musical O que cabe no meu coração (1), parceria dele com o mineiro Raul Maxuell gravada em vídeo por ele na companhia de Yayá Vilas Boas e de Thiago Almeida, destaquei alguns pontos que considerei muito positivos da canção. Apresento alguns trechos do que lhe foi dito:

[20:01, 29/04/2021] Sérgio Araujo: Se gostei? Muito. Melodia gostosa de ouvir, sua voz e de Yayá bem ajustadas. A letra me inquieta um pouco, pelas associações surpreendentes em alguns trechos, porque sugerem relações não convencionais. Escuto e escuto e escuto… E gosto e gosto e gosto… Para mim, uma bela música. […]

[20:20, 29/04/2021] Sérgio Araujo: Nessa gravação que fizeram, você e Yayá estiveram em momento muito feliz. O ajuste de vozes em uma interpretação musical, você sabe que às vezes é bem complicado; vocês conseguiram casar muito bem as vozes de vocês. Acredito, Edinho, que O que cabe no meu coração está tocando a sensibilidade de muitas pessoas que a escutam. […] Essa música mexe com a gente.

[15:09, 30/04/2021] Sérgio Araujo: Eu fico com a sensação de que essas reações emotivas estão acontecendo e vão acontecer com muitos que ouvirem O que cabe no meu coração, principalmente aqueles que “pararem” para ouvi-la, que se “permitirem” ouvi-la e, mais ainda, os que se derem ao prazer de, sinestesicamente, serem “tocados” por ela. O que cabe no meu coração – estou pensando aqui na inter-relação de letra, harmonia bem realizada, melodia bem executada, instrumentos associados, arranjos, interpretação dos artistas, junção, intercalação, sobreposição de vozes – não apenas nos chega pela audição; principalmente nos invade todos os sentidos, de tal maneira que nos emociona, nos fazendo dançar (ou ter a sensação da dança), cantar junto, até refletir no que a letra estaria se propondo dizer. […] Você e Raul Maxwell compuseram uma belíssima canção e sua interpretação com Yayá está uma “pintura”. […]

É assim que penso em “música”: além das questões muito técnicas de extremo e inegável valor para que existam, ela se faz presente na vida das pessoas pelo potencial nela existente de alcançá-las em suas subjetividades, em suas possibilidades sensitivas, enfim, em suas condições de recepção.

De tal maneira isso ocorre que uma mesma dada música pode fazer alguém sorrir, ao mesmo tempo em que pode levar outro alguém a chorar, a depender do estado de espírito momentâneo de cada uma delas, tanto fazendo se são composições plenamente instrumentais ou se são melodias acrescidas de letras que podem enriquecê-las.

Lembrou-se de já ter experienciado as duas situações, não é mesmo, leitor? Simplesmente porque você estava em momentos suscetíveis a tais emoções. Então sorriu, cantou junto com o intérprete, dançou, até em uma dada circunstância; mas também chorou, se entristeceu, se deixou abater e se prostrou tamanha a intensidade com que a letra e a melodia e os arranjos adentraram seu estado de espírito.

É assim que percebo que músicas podem nos tocar tão profundamente que nos acompanham por toda nossa trajetória de vida – muitas vezes até quando a memória fica implicando conosco e querendo em nós adormecer. E quando uma letra (um poema?) se associa à melodia de tal forma que nos dão a impressão de que uma não existiria sem a outra, “viiiiiixe”, aí as nossas impressões em relação à música se tornam extraordinariamente relevantes, impactantes.

Em 1972 eu contava pouco mais de 12 anos de idade. Me lembro que uma tradição marcante no mundo da música era o lançamento de um disco de Roberto Carlos a cada final de ano. Minha mãe gostava muito de ouvir o “Rei” e meu pai a presenteava todos os anos, no Natal, com as novas músicas do artista de Cachoeiro de Itapemirim. Minha mãe, possivelmente sem se dar conta, me acostumou a gostar das músicas que ela ouvia. Gostar e, por algum motivo, ser influenciado por elas. Aconteceu algo semelhante com você, leitor? Por acaso em sua pré-adolescência – e mesmo nela – se sentiu impelido a acreditar que aquela música que tocava nas rádios ou mesmo na vitrola de sua casa havia sido feita exatamente para você, tamanha a “oportuna” leitura que ela fazia de sua existência?

Me lembro de algumas coincidências dessas. E indicarei duas aqui, ambas do álbum Roberto Carlos (1972). Embora a casa em que eu morava com meus pais e meus irmãos ficasse em uma vila e a única janela da parte de frente dela desse para outra janela da casa que lhe ficava imediatamente defronte, a música À janela, composição de Erasmo Carlos e Roberto Carlos, me fazia abrir as asas da imaginação e, em poucos instantes, já não mais estava onde estava, mas me encontrava em algum sonho que me levaria a algum outro lugar plenamente desconhecido, mas desejado. Ai ai ai… “Coisas da vida / Choque de opiniões”.

Alguma recordação sua, leitor, sobre situação semelhante ou nem tanto análoga, mas ocorrida? Pois bem, o mesmo Roberto Carlos, em 1972, me impulsionou a viver meu primeiro amor platônico; eu, com meus apenas 12 anos – dizem que as novas gerações se apaixonam até mais cedo. Será? – abracei inconscientemente a melodia e a letra da belíssima canção Você é linda, composta pelos mesmos dois parceiros. Abracei, permiti-me ser plenamente envolvido por ela e pouco tempo depois me encontrei desiludido. Não era para menos. Consegue imaginar, leitor, um garoto de 12 anos apaixonado por sua professora de português… grávida?! A professora era atenciosa com todos os seus alunos e nos incentivava sempre a prosseguirmos em nossas atividades, principalmente quando nos percebia desatentos. Certamente ela nem imaginava que minha desatenção pudesse estar associada ao fato de eu a considerar “Linda, esperando neném”.

Hoje sei bem que o casamento perfeito da voz de Roberto Carlos com as melodias magistralmente executadas pela orquestra que já o acompanhava naquele início dos anos 1970 foram os responsáveis pela minha infantil sedução para os devaneios pulsados. Além disso, sua interpretação de cada uma das músicas seguramente causou o efeito de persuadir aquela minha pouquíssima experiência de vida. Esse octogenário, tenho quase 100% de certeza, fez muita gente sonhar embalada por suas canções, ou realizar seus desejos acalentada por várias delas. Até porque, aqui, citei apenas duas músicas de seu cancioneiro. Eita! O que poderá ter acontecido sob a influência de toda a sua obra? Bem que você, leitor, poderia contar um pouco de sua trajetória sob o canto mavioso do “Rei”, não é mesmo?

De minha parte, que já concluo esse texto, quero apenas destacar que, para mim, a melhor música será aquela que, “além das questões muito técnicas de extremo e inegável valor para que existam, ela se faz presente na vida das pessoas pelo potencial nela existente de alcançá-las em suas subjetividades, em suas possibilidades sensitivas, enfim, em suas condições de recepção”. E isso pode acontecer em qualquer tempo histórico.

Nota de fim de texto

(1) A composição “O que cabe no meu coração” participa do II Festival de Música – Estação das Artes – Bar do Museu Clube da Esquina (2021), em Minas Gerais e esteve disponível, no canal do Festival na Plataforma YouTube para acesso até o dia 30 de abril.

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