Discografia

Fábio Passadisco: O guardião pernambucano da MPB

Fábio Passadisco (Foto: Divulgação)

Não vou lembrar da primeira vez que encontrei o nome “Passadisco” em alguma timeline, mas algo chamou atenção. Não só por ser uma loja de discos, mas por ser mais do que uma loja de discos. Por exemplo, quando o compositor Zé Manoel lançou seu mais recente disco, Do meu coração nu, inicialmente seria um álbum virtual e um LP lançado no exterior. Mas aí, Fábio Cabral, ou Fábio Passadisco, resolveu fazer uma parceria com a gravadora Joia Moderna e lançar o terceiro trabalho do pernambucano também em CD. Mas pra que? Pra preservar um produto que, apesar de todas as torcidas contrárias, ainda encontra seus adeptos.

Localizada na Rua da Hora, 345, em Espinheiro, Recife, a Loja Passa Disco é um espaço pra quem gosta de música além da audição. É um espaço de encontro, de trocas de ideias, de lançamentos e onde, além de um disco, você compra uma planta ornamental. Agrônomo formado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, ele compartilha seu amor pela música com o talento para lidar com as plantas. Por email, Fábio conversou com o DISCOGRAFIA sobre esse cuidado com memória, cultura e tradições que vão além do mercado musical. Confira.

DISCOGRAFIA – Fábio, queria começar sabendo sua história. De onde você é, sua família, sua formação, que profissões teve antes da loja.
Fábio Passadisco – Minha família é toda do Recife; porém nasci em Palmares (Zona da Mata Sul), pois nessa época meu pai trabalhava na Usina Pumaty. Moro no Recife desde 1973. Sou formado em agronomia (pela UFRPE) e antes de abrir a loja em 2003 trabalhei como paisagista e fui sócio num bar.

Foto Divulgação

DISCOGRAFIA – Como surgiu seu interesse pela música? Lembra dos primeiros artistas que te chamaram atenção como ouvinte, que músicas tocavam na sua casa?
Fábio Passadisco – Na minha casa não tinha som, nem mesmo um rádio de pilha. Meu pai não gostava de música. Meu primeiro som foi um gravador (ainda morando na Usina Pumaty, com 9 anos de idade). Os primeiros artista que me chamaram atenção foram Raul Seixas, Jorge Ben e Secos & Molhados… Mas antes de comprar o gravador e as fitas K7 desses artistas, cresci ouvindo minha mãe cantar Dorival Caymmi, Dalva de Oliveira, Luiz Gonzaga e muitos frevos e marchinhas.

DISCOGRAFIA – Qual a história da Passa Disco? Quando ela nasceu e por que esse nome?
Fábio Passadisco – A Passa Disco surgiu dessa minha paixão pela música desde criança e dos CDs que comecei a vender ainda quando era sócio do Bar Rei do Cangaço (anos 1990) e os artistas que por lá se apresentavam deixavam os CDs para vendermos. O nome foi um presente de Lula Queiroga, um desses artistas que conheci no bar e por lá se apresentou.

DISCOGRAFIA – Como você vê esse mercado da música hoje? Você vende um produto que muita gente já vê como ultrapassado, que é o disco físico. Você vê assim?
Fábio Passadisco – Desde o surgimento da loja que o mercado fonográfico vem sofrendo pela concorrência das facilidades criadas (muitas vezes por elas mesmo). No início da loja o problema maior era o CD pirata, depois surgiu o MP3, os pen drives, os compartilhamentos de arquivos, as plataformas digitais… Já inaugurei a Passa Disco ciente das dificuldades que iria enfrentar.

DISCOGRAFIA – Pela sua experiência, que tipo de artista ainda grava CDs e quem é o público que compra?
Fábio Passadisco – É muito relativo, pois tem artistas de décadas passadas que seus últimos trabalhos foram apenas digitais, como por exemplo Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Nana Caymmi… E diversos artistas que surgiram nos últimos anos e lançam seus álbuns em CD e/ou vinil. Sempre tem públicos para todos os tipos de estilo musical. Na loja, a maioria do meu público é do sexo masculino na faixa etária dos 20 até 60 anos.

Lenine em sessão de autógrafos na Passadisco (Divulgação)

DISCOGRAFIA – Além de vender, você também criou um selo que produz e vende discos. Queria que você falasse desse trabalho.
Fábio Passadisco – Sim, em 2006 criamos o Selo Passa Disco e já lançamos diversas coletâneas, como as séries Pernambuco Cantando Para o Mundo (com 4 volumes), Pernambuco Frevando Para o Mundo (com 2 volumes) e Pernambuco Forrozando Para o Mundo (com 2 volumes), além de títulos inéditos de Zé da Flauta, Zé Manoel, Projeto Sal, Mulungu, Bruno Souto, Mazuli, Xico Bizerra… E relançamentos de Josildo Sá e Accioly Neto.

DISCOGRAFIA – O pernambucano é muito conhecido por defender a própria cultura e valorizar sua música. De que forma isso interfere e até favorece o seu negócio?
Fábio Passadisco – É fundamental. A loja surgiu exatamente para defender essa bandeira. A maior parte do nosso acervo é exatamente da música produzida no nosso Estado.

DISCOGRAFIA – Qual a sua análise sobre a música pernambucana atual? Que artistas você indica que representam uma nova cena local?
Fábio Passadisco – Pernambuco sempre esteve presente na música brasileira, desde os primórdios com João Pernambuco, Capiba, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lula Côrtes, Robertinho de Recife, Lenine, Chico Science, Mundo Livre, Mestre Ambrósio… Atualmente, está vivendo outra ótima fase, com novos artistas como Juliano Holanda, Flaira Ferro, Almério, Martins, PC Silva, Zé Manoel, Amaro Freitas.

DISCOGRAFIA – E o cenário nacional, como você vê o que se produz em termos de música hoje no Brasil?
Fábio Passadisco – Mesmo nesses dois anos de pandemia, tenho visto surgir ótimos álbuns, como os da Baiana System, Metá Metá, Luedji Luna…

DISCOGRAFIA – Há mais de um ano, a crise econômica trazida pela pandemia levou muitos negócios a fecharem as portas. Como tem sido esse período pra você?
Fábio Passadisco – Tem sido muito difícil. Vários dias com a loja fechada (com meu total apoio) e os lançamentos rarearam consideravelmente.

DISCOGRAFIA – Que previsões você faz para a Passa Disco? Consegue prever até quando essas mídias físicas terão um público capaz de manter um negócio?
Fábio Passadisco – Eu acredito que a tendência seja de crescimento, como já vem ocorrendo em vários países. É claro que nunca mais teremos as grandes vendas do passado, mas a mídia física será eterna. Haverá um dia em que os CDs serão tão cultuados como os LPs têm sido hoje em dia. Não acredito muito num crescimento dos DVDs.

DISCOGRAFIA – Além dos CDs e DVDs, que outros produtos você oferece na Passa Disco? Também não sei se você vende apenas discos novos ou se também atua como sebo.
Fábio Passadisco – Além dos CDs, DVDs e LPs, também vendemos livros, camisetas, plantas ornamentais… Mas os CDs são responsáveis pela maioria do negócio. Sim, também vendemos produtos usados… É uma tendência mundial.

DISCOGRAFIA – Queria que você me falasse da “Academia Passa Disco da Música Nordestina”.
Fábio Passadisco – Surgiu para homenagear os cantores, compositores, pesquisadores que sempre apoiaram a loja… Surgiu em 2008 e já homenageou nomes como Lenine, Elba Ramalho, Ariano Suassuna, Dominguinhos, Mestre Salustiano… Daí do Ceará, homenageamos o pesquisador Paulo Vanderley e o produtor José Milton.

DISCOGRAFIA – O frevo é uma marca histórica de Pernambuco, reconhecida em todo o Brasil e no mundo. No entanto, a produção musical do estado vai muito além desse estilo. Queria que você indicasse e comentasse cinco discos que demonstram essa pluralidade da música pernambucana contemporânea.
Fábio Passadisco – Começando pelo frevo, eu indicaria o Passo de Anjo da Spok Frevo Orquestra, que mescla o frevo com o jazz… O Da Lama ao Caos de Chico Science & Nação Zumbi que revolucionou não só a música do Recife; o Fuloresta do Samba de Siba & A Floresta, por mostrar para todo o Brasil a música da Zona da Mata pernambucana, com seus maracatus, cirandas e cavalo marinho; Do Meu Coração Nu do cantor, compositor e pianista Zé Manoel, com seu lirismo pouco comum na atual música brasileira e finalmente “Desempena” de Almério, mostrando a nova cena de compositores de Pernambuco.

DISCOGRAFIA – Que importância você vê para o CD, LP, DVD numa era dominada pelo consumo imediato do streaming?
Fábio Passadisco – É fundamental pra preservar a memória da MPB, seus encartes serão um importante documento para a história do Brasil… No streaming tudo será esquecido num futuro próximo.

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