Entre Aspas

Parede com parede

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Quem nunca teve um vizinho na vida que levante a mão. Quem nunca teve, não quer ter. Eu já tive, já tenho e pretendo não ter pelo resto dos meus dias. Mas isto é quase que impossível. Mesmo que você vá morar isolado na Antártida ou na Rússia, sempre haverá um vizinho pra ti, mesmo que seja a tua sombra, ela será a tua vizinha.
Vejamos pelo lado bom da coisa. Vizinho ajuda muito a gente na hora que estamos precisando não? Quem nunca parou na hora de fazer o almoço por conta que o sal tinha acabado e foi na casa do vizinho pegar um xícara de sal, de açúcar ou derivados? Eu fui por conta de minha mãe, que sempre me mandava na casa da vizinha pra pedir alguma coisa que tinha faltado, ambas se ajudavam, quando faltava leite na casa da vizinha lá ia ela toda toda pedir na minha casa, era assim, ambas se ajudavam.
Vizinho também serve na hora das desventuras que você passa na vida. Um dia desses perdi a chave da minha casa, não sabia onde tinha colocado, talvez tivesse deixado cair na rua ou deixado no jornal ou na faculdade ou na casa de algum amigo, ou sei lá, só sei que não estava na minha bolsa, onde era o seu lugar de origem. Olhei para a fechadura e quase chorei. Ficaria horas e horas no meio da rua, no sol escaldante de Fortaleza, esperando a minha mãe chegar ou alguém que pudesse me ajudar. E para piorar a situação , eu não estava com o meu celular, tinha esquecido em casa. É meu caro, você já deve ter me julgado, sou lesado sim, lerdo, esqueço coisas que não deveria esquecer e me lembro de coisas que deveria esquecer, mas enfim…
A fome, a sede, o sono, todos os males de uma pessoa corriqueira e multitarefada começaram a aparecer. Mas daí que minha vizinha, uma diva na hora, me ajudou, deixou eu ficar na casa dela até minha mãe chegar. Eu que não sou muito chegado a vizinho, fui né, fazer o quê, tudo tem a sua primeira vez. Entrei na casa, tomei água, comi panqueca e coca cola, o almoço da vizinha e esperei a minha mãe chegar. Um ponto para os vizinhos não gente?
Mas nem só de bons vizinhos uma pessoa vive. Já tive e tenho vizinhos ruins, maus. Digo no sentido cultural. É cada um praticando os seus crimes musicais que já não se enquadram nos crimes da poluição sonora. Um antigo vizinho escutava Bob Marley, até aí tudo bem, mas logo mudava para escutar raça Negra. Minha mãe que gosta da tal começava a cantarolar e apostava até alguns passinhos. O outro vizinho, um nerd que usava preto todos os dias, escutava Beatles, mas logo após escutava Nirvana, aqueles gritos estrondosos. E eu ficava a flor da pele, no meio da poluição sonora dos meus vizinhos, querendo assistir uns filmes simplórios que não faziam mal a nenhum vizinho.
É preciso citar também o poder da fofoca entre os vizinhos. Esta é uma característica deles. A fofoca, as injúrias que são contadas, as pieguices que são ditas, as falsas amizades que rodeiam o mundo dos vizinhos. Disto, não podemos escapar, os vizinhos são para sempre, cada qual no seu lugar, cada qual na sua casa, cada qual com as suas fofocas.
E se um dia alguém escrever sobre um vizinho que escuta Guns and Roses, Lana Del Rey e Clara Nunes na madrugada, que assiste documentários sobre cinema e jornalismo e grita alto versos e pensamentos de Clarice Lispector e Frida Kahlo, este sou eu. Me avisem por favor!

Texto: Eduardo Sousa|| Imagem: Internet

 

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