Leituras da Bel

Do Youtube para os livros

Taciele Alcolea é uma das convidadas

Taciele Alcolea é uma das convidadas

Conhecidos na internet e com milhões de seguidores, os youtubers brasileiros vão além do vídeo. De marca de roupas até presença vip em eventos, eles conquistam novas plataformas e agora são febre nas livrarias

Por Isabel Costa (isabelcosta@povo.com.br)
Mariana Amorim (marianaamorim@opovo.com.br)

Em 2006, quando o Youtube entrou no ar, todos ganharam a oportunidade de ser estrela da Internet. De lá para cá, uma geração cresceu em frente a câmeras de vídeo, produzindo um conteúdo autoral e bem humorado que fala sobre tudo, desde situações cotidianas e feminismo até resenhas de livros ou filmes. Esse nicho, que foi ganhando cada vez mais visibilidade e seguidores, hoje movimenta um mercado milionário e influencia grandes públicos. O sucesso é tanto que, agora, os youtubers migraram para outras plataformas.

Para além da tela dos computadores, tablets ou smartphones, os youtubers agora também fazem fama nas prateleiras das livrarias. Liderando as listas dos mais vendidos, eles chegam com força na 24º Bienal Internacional do Livro de São Paulo – um dos maiores eventos de literatura do Brasil, que ocorre entre os dias 26 de agosto e 4 de setembro – dividindo a programação com nomes como Conceição Evaristo, Ignácio de Loyola Brandão e Bráulio Tavares. Reproduzindo os comentários da internet ou criando novos conteúdos, eles quebram barreiras entre o virtual e o papel.

Os youtubers, muitas vezes, são a principal fonte de informação para os jovens. “Negar o sucesso dessas estrelas da Internet é ir contra o óbvio. Nós temos é que nos apropriar disso e assim trazer esse público para perto da gente”, explica Luís Antônio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro e responsável pela Bienal. A mudança causada por esse fenômeno dentro do universo da literatura infanto-juvenil pode ser avaliada, segundo ele, através do número de vendas. “Eles estão entre os mais vendidos e são os atuais responsáveis pela formação de novos leitores”, complementa.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=XWjtFhkgTHw[/youtube]

O foco da edição de 2016 é a multicultura e isso implicou na hora de escolher os convidados. “Desde 2014, estamos trabalhando para tornar o evento algo mais plural, eclético. Queremos oferecer espaços para todos os gostos e idades. A Bienal não veio para segregar e sim, para juntar. Por isso, convidamos os youtubers. Eles têm uma representatividade”, pontua Torelli. Para o evento atingir os objetivos, foram realizadas diversas modificações – da forma de aquisição dos ingressos até a disposição das atividades dentro do espaço. O intuito, explica o curador em entrevista ao Leituras da Bel, é fazer com que os jovens tenham contato com outros tipos de leitura antes de acessar os youtubers.

“Reformulamos tudo. Queremos aproveitar a presença desses jovens para mostrar o mundo que existe dentro de uma bienal”, ressalta Torelli. Além dos pontos de venda tradicionais, os ingressos podem ser comprados através do Tickets For Fun, popular site de vendas entre os jovens. Para congregar mais público, foi criado um sistema de códigos que garante descontos à medida que se compra mais ingressos – promoção típica da internet.

Maju Trindade lança livro durante a bienal

Maju Trindade lança livro durante a bienal

A presença massiva dos youtubers – nas prateleiras de livrarias e em lugares de destaque da Bienal –, entretanto, causou estranhamento entre alguns críticos literários, professores e autores. Eles apontam um esvaziamento do evento, que estaria dando mais espaço a títulos fúteis e deixando de lado os autores consagrados da literatura brasileira. Entre os convidados, estão a curitibana Kéfera Buchmann, do canal 5inco minutos, com mais de 9 milhões de inscritos; a carioca Juliana Tolezano, dona do canal Jout Jout Prazer, se aproximando dos 970 mil seguidores; e PC Siqueira, um dos pioneiros na plataforma e fundador do canal Mas Poxa Vida, com mais de 2 milhões de inscritos.

Para o publicitário Maycon Almeida, 33, os livros tornam palpável aquilo visto nos vídeos. “Eu sigo a Jout Jout e sou fã do trabalho dela. Ela traz assuntos de relevância e o livro é uma consolidação do que ela transmite”, comenta. Ele reconhece, entretanto, que há preconceito com o conteúdo difundido pelos youtubers. “Como se fosse algo menor, mas não é. A Jout Jout fala de temas bem importantes como o feminismo e igualdade de gêneros. A participação deles em um evento como a Bienal (do Livro de São Paulo) pode quebrar esse preconceito”, destaca Maycon. Para a estudante Gabriela Nemo, 14, os livros são atrativos. “Eu sigo a Kéfera porque ela é engraçada e eu me identifico muito com ela. O livro dela traz essas histórias, por isso é legal. É como se fosse minha vida”, confessa a estudante.

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