Leituras da Bel

Leituras da Bel discute o ofício do poeta em meio a mundo de leituras cada vez mais instantâneas

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Por Renato Abê (renatoabe@opovo.com.br)

Poesia pede calma. O poeta tem de ter paciência e destreza para sintetizar o mundo em versos. Já o leitor precisa estar aberto para se demorar em palavras que escondem nas entrelinhas múltiplos sentidos. A partir do Dia Mundial da Poesia — que é comemorado na próxima terça-feira, 21 de março —, o caderno Vida&Arte, do O POVO, fez série de matérias e discutiu ofício do autor em meio a mundo de leituras cada vez mais instantâneas e objetivas. Parte das matérias será replicada no blog. Afinal, qual o papel da poesia em nossos tempos?

Para Geraldo Augusto Fernandes, professor de Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFC), a poesia oferece um escape ao pensamento ditado por leituras objetivas e imediatas. “É o trabalho com a palavra que nos faz viajar. Em um mundo de caos, de crises econômicas e políticas, a panaceia pode ser a poesia”, elabora o pesquisador do gênero literário. Geraldo argumenta que o poeta tem de buscar caminhos para traduzir sensações de ordem macro em versos que, muitas vezes, são mínimos.

Poesia é também a técnica. O poeta pode ter o conteúdo, a inspiração, mas tem de ter também uma fórmula de transformar tudo isso em texto”, detalha. Para ele, mais importante que pensar rima, métrica e harmonia é encontrar a cadência textual. “Com a poesia moderna, não temos mais todas essas técnicas engessadas, mas o ritmo continua sendo o mais importante”, afirma, apontando fazer parte do ofício do poeta pensar sons e movimentos a partir do que escreve.

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Membro da Academia Cearense de Letras (ACL), o poeta Pedro Henrique Saraiva Leão defende que, no mundo do efêmero, a palavra poética se impõe perene. “A poesia é o ultimo refúgio da literatura. (Ela) independe das modificações sociais e, por isso, pode seduzir todos os povos em todas as épocas”, aponta. Para o escritor, que há pouco lançou o livro Plíndola, a grande questão do poeta é desvendar o próprio ofício. “A própria poesia é um desafio. É difícil traduzir em palavras o que vai dentro do seu íntimo. A poesia é imponderável, é um desafio constante”, conceitua.

Já para Maria do Socorro Pinheiro, doutora em Literatura Brasileira e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o trabalho do poeta atinge dimensão ampla que ultrapassa o campo do deleite literário. “Apesar de ser pouco lida e pouco estudada inclusive na academia, a poesia é fundamental para a formação de um leitor, porque a importância (desse gênero literário) está ligada à dimensão do humano que a poesia evoca”, reflete.

Ela defende ser a poesia “um exercício espiritual e humano que traz para o leitor um desvelamento do ser”. Segundo a pesquisadora, que durante o mestrado e o doutorado estudou esse gênero textual, essa relevância se dá pela linguagem. “Eu vejo uma preferência por outros gêneros, porque há uma dificuldade maior de interpretação do poema. A poesia pede tempo para ler. Ela habita o universo das metáforas e, também por isso, sempre nos revela um pouco de nós”, coroa.

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