Leituras da Bel

A narrativa kafkiana em A Metamorfose

Franz Kafka

A primeira edição do Clube de Leituras da Bel, que será realizada no Passeio Público, no dia 17 de junho,  vai trabalhar os livros Os 13 porquês e A Metamorfose. Provocamos Ana Taciane Filgueira, estudante de Letras e leitora de Kafka, a produzir um texto sobre a obra do escritor alemão. Você confere a leitura e a escrita da Taciane aqui:

Por Ana Taciane Filgueira*

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos metamorfoseado num inseto monstruoso.”, assim inicia um dos mais célebres romances do século XX, A Metamorfose (traduzida no Brasil por Modesto Carone em 1997), escrita por Franz Kafka e publicada em 1915, que veio, posteriormente, em 2009, servir de inspiração para o nome do quarto álbum do cantor pernambucano Otto, representante da, então, Nova MPB, intitulado Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos.


Muito provavelmente Otto conseguiu inferir a indagação proposta por Deleuze e Guattari em Kafka: por uma literatura menor, quando, justamente, tratam da seguinte pergunta que inicia a obra: “Como entrar na obra de Kafka?” Mais. Conseguiu transferir para seu disco a solidão e dor concernentes ao personagem GregorSamsa, protagonista do romance.

Kafka sabia o que era solidão e como fazer uso dela: “O fato de estar sozinho exerce infalível poder sobre mim. O meu ser íntimo dilui-se (superficialmente por enquanto) e dispõe-se a deixar transparecer algo de mais profundo. Uma primeira ordem principia a estabelecer-se em minha intimidade e deixo de ter necessidades prementes, pois o que existe de pior é a desordem em meio a pequenas faculdades.” O trecho, retirado de seu Diários, reflete a condição existencialista exercida pelo personagem Gregor, que, abandonado pela família, carrega consigo, de certa forma, a dívida dos pais – em caráter religioso.

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A leitura religiosa da obra, por assim dizer, remete-nos a passagens da narrativa que transportam-nos para questões além das já acolhidas – entre muitas outras, a opressão provocada pelo sistema, as noções de valores familiares e, sobretudo, a delicada relação com o pai. Os dogmas religiosos ressaltados fazem com que nos inclinemos a enxergar as condições que influenciam a moral e criam a tensão que culmina no desfecho do livro.

É válido salientar que o ambiente familiar do patriarcado judaico enquanto alusão aos conflitos de Kafka com a sua figura paterna, bem como a descrição do imaginário de uma identidade burguesa descentrada e oprimida pela burocracia estatal, também são possíveis leituras que podemos fazer da obra. Esse choque entre a racionalidade do homem moderno e as convenções morais ditadas a partir de perspectivas religiosas conduzem a obra, ainda, a uma relação estreita com a de Dostoiévski.

Tomemos devidamente, por fim, ao pé da letra a Lição de Kafka designada por
Modesto Carone, quando o crítico literário determina que trata-se a obra de Kafka de um
“realismo deformado”, ajudando-nos, dessa forma, a compreender o estranhamento ou, até, a dificuldade que o leitor sente diante de um texto do autor, uma vez que a escrita kafkiana fundamenta-se na narração de realidades empíricas do drama humano e, por vezes, tais realidades descritas por Kafka fogem a padrões de normalidade (sendo consideradas componentes de uma narração absurda, enigmática e evasiva), como ocorre em A Metamorfose.

E, para quem quiser aprender mais, aqui estão as referências usadas por Ana Taciane Filgueira para compor o texto:
KAFKA, Franz. Diários. Itatiaia: Belo Horizonte, 2000.
____________. A Metamorfose. Porto Alegre: L&PM, 2012.
CARONE, Modesto. Lição de Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Dossiê: Franz Kafka. In: Revista Cult. n. 194, ano 17, set. 2014.
CUNHA, Edson Jesus de Melo.O Imaginário Cultural Judaico na Constituição da Escritura Kafkiana. Feevale, Novo Hamburgo: 2015.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

Serviço
Clube de Leituras da Bel
Onde: Passeio Público (Rua Dr. João Moreira S/N ao lado da Santa Casa de Misericórdia., Centro)
Quando: sábado, 17 de junho
Horário: 10 horas
Outras informações: leiturasdabel@gmail.com ou @leiturasdabel

*Ana Taciane Filgueira é produtora cultural, revisora de textos, estudante de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC) e leitora assídua de Franz Kafka. Gosta de jogar xadrez, de ouvir boas músicas e tem sempre um livro por perto!

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