Leituras da Bel

Manual para amar Lucia Berlin

Lucia Berlin

Coletânea de contos Manual da Faxineira, lançada no Brasil pela Companhia das Letras, descortina uma escritora de texto cínico e envolvente

Onde pairava Lucia Berlin? Como a personagem de um de seus contos, certamente a escritora norte-americana estava presa no limbo. O buraco negro onde ficam depositados os autores de texto incrível que não têm apelo da crítica especializada ou do mercado editorial. Lucia encanta qualquer leitor pelo texto cínico. Sim, cínico. Ela não tem medo de descortinar realidades – e mostrar aspectos cruéis da própria vida e da vida dos outros.
Nascida em 1936, no Alaska, ela passou a infância peregrinando de cidade em cidade. O pai era minerador e precisava das constantes mudanças para sobreviver. Da meninice pobre, Berlin trouxe para o texto a necessidade de autoafirmação diante das outras crianças. Muitos de seus contos se passam em escolas.

Foi preciso mais de uma década para que o mundo descobrisse a escrita de Lucia Berlin. Morta em novembro de 2004, ela permaneceu apagada para os holofotes. Somente com o relançamento de seu Manual da Faxineira, que chega ao Brasil em edição da Companhia das Letras, o público e a crítica finalmente se encontraram com os textos da norte-americana.

Nas décadas de 1980 e de 1990, Lucia já trabalhava com o conceito de autoficção. As personagens de seus contos dialogam com a vida da própria autora. Para sustentar os quatro filhos – frutos de três relacionamentos diferentes – ela precisou trabalhar como recepcionista, faxineira, telefonista e até como professora. Cuidou das crianças praticamente sozinha em uma época na qual o divórcio era incomum e causava repulsa em algumas pessoas.

Os desafios que precisou enfrentar como mãe solteira e trabalhadora estão vertidos nos contos. Manual da Faxineira fala sobre medos cotidianos de todos nós. Não ser aceita pelos alunos da escola, não corresponder aos anseios dos filhos, não atender as expectativas dos avós. É um livro que faz rir, mas com pontas de julgamento e crítica.

Lucia Berlin

Não bastassem todos os problemas de Lucia Berlin, ela herdou no sangue a tendência ao alcoolismo. Circulou por hospitais e clínicas. Precisou conciliar a criação dos filhos com a rotina de tratamentos. Passou por várias reviravoltas até alcançar a “calmaria” nos últimos anos de vida, quando se estabeleceu como professora universitária. Mas a escritora é mais do que a mulher de vida problemática. Ela tem textos que urgem, que gritam, que urram, que batem. Ela escancara verdades e mentiras na nossa frente, descortinando os pudores mais intrínsecos.

Não sabemos quantas Lucias estão escondidas. Talvez perdidas no limbo do mercado editorial, inexpressivas diante de publicações que ainda são dominadas pelo estereótipo do homem, branco e heterosexual. O fato é que a simples existência de uma escritora como Lucia Berlin (e com um sucesso inegável, ainda que tardio) nos prova que outras autoras podem ser descobertas, apreciadas, amadas e, principalmente, lidas como merecem.

No Brasil, como exemplos, temos as extraordinárias Ana Cristina Cesar (1952-1983) e Carolina Maria de Jesus (1914-1977) – que, após anos vivendo na margem do mercado editorial, se tornaram conhecidas do grande público e ganharam novas edições de suas obras. Não se sabe até quando teremos autoras mulheres (geralmente negras e/ou pobres) ficando nos cantos baixos das prateleiras. Meu coração de leitora quer que elas possam aparecer no mercado editorial o mais rápido possível e que sejam surpresas tão boas quanto Lucia Berlin.

Serviço
Manual da Faxineira
Lucia Berlin
Companhia das Letras
Tradução: Sonia Moreira
Preço: R$ 64,90

 

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