Leituras da Bel

Leia entrevista com Mailson Furtado Viana, escritor cearense vencedor do Jabuti

De uma cidade com menos de 20 mil habitantes – Varjota, no interior cearense – veio o vencedor da 60º edição do Prêmio Jabuti. Mailson Furtado Viana – autor independente, diretor teatral e fazedor de artes – subiu ao palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, primeiro para receber a estatueta da categoria poesia. Um feito e uma surpresa para o escritor de 27 anos que pagou a impressão do próprio livro.

à cidade  é uma obra de 60 páginas, que faz um mapeamento literário sobre municípios cearenses. Mas o apresentador Serginho Groisman, cerimonialista da noite, ainda chamaria o nome de Mailson mais uma vez. Os vencedores de todas as categorias do Eixo Literatura da premiação concorrem a um prêmio maior: o livro do ano.

Mailson Furtado Viana

Sem precedentes e com o andar tranquilo, o escritor voltou ao palco para receber outra estatueta. “(Estou) mais feliz ainda porque é uma obra que narra sobre o meu lugar: a cidade que nasceu há menos de 50 anos e acho que nunca entrou em nada, registro biográfico, nada… Enfim, e agora eu tô com esse Jabuti na mão por causa dela”, disse no discurso. Com tiragem esgotada, à cidade terá uma nova leva de impressões feitas nos próximos dias.

Mailson é filho do Seu Rodrigues e da Dona Arlete – agricultor e dona de casa, respectivamente – que nunca tolheram os desejos do jovem de fazer arte. Mais velho de três filhos, ele começou o envolvimento com arte ainda na escola. Mais tarde, teria a rotina dividida entre a faculdade de odontologia cursada na Universidade Federal do Ceará, em Sobral, e a criação poética e teatral. Após a formatura, continuou se dedicando ao universo artístico – com montagens encenadas em cidades do interior, estudos técnicos e novos livros. O apoio, ele diz, também veio da esposa Yane Cordeiro – integrante do grupo de teatro – e do filho Fernando, de dois anos. A rotina do artista envolve trabalho como dentista nas cidades de Reriutaba e Varjota durante a manhã e a tarde. A criação, explica Mailson, fica para as noites e as madrugadas.

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Conheça o livro à cidade, de Mailson Furtado Viana

“Então essa indicação e esse prêmio abrem essa janela para que todo o nosso mercado, todos os nossos leitores, enfim, toda a nossa grande massa literata, intelectual, abra os olhos para essa grande parte de autores que escrevem em grande qualidade e não publicam mais porque não têm espaço, porque têm que se bancar. É nosso. Não é meu, é nosso. Obrigado, pessoal”, finalizou o poeta. O próximo livro – Passei pelas ruas de mim e de outros, que será lançado em 2019 – será publicado pela editora Luazul, mas, mais uma vez, teve a impressão custeada pelo autor. Por telefone, Mailson falou sobre o apoio constante da família, a produção cearense de poesia e a dificuldade de transpor a barreira entre interior e capital.

Leituras da Bel: O que essa premiação representa para você que é um autor independente e morador do interior do Ceará?
Mailson: Bel, eu vou ser sincero: ainda não caiu a ficha. Não esperava nem ganhar a categoria de poesia. Para mim, já é um negócio do outro mundo. E ganhar com o livro do ano foi um choque estrondoso. Estou anestesiado até agora, não sei o que estou sentindo. Mas acredito que seja um grande divisor de águas e uma grande abertura. Como eu falei lá no palco, que esse prêmio abra portas não só para mim. Não quero ser publicado somente eu por uma editora grande e meus amigos – que estão penando e pelejando comigo – fiquem à mercê. Quero que se possam abrir portas para todo mundo. Que o grande mercado editorial busque enxergar um pouco mais isso, que abra portas para isso. Acredito que vai trazer coisas positivas.

Leituras da Bel: O que há de diferente da escrita do à cidade para o livro novo?
Mailson: à cidade foi uma experiência doida na minha vida enquanto escrita que até hoje não consigo repetir. O livro foi escrito em 2015. Foi um experimento muito intenso à época. Passei 20 dias preso dentro desse poema escrevendo o livro. O poema me agarrou e só consegui soltar quando terminei. Foi uma coisa muito visceral, essa é a palavra. O Passei pelas ruas de mim e de outros, entre aspas, tem uma conceituação do livro, mas tem muitos experimentos que eu ainda não tinha experimentado em relação aos meus primeiros livros que eu também considero livros experimentais. Eu estava conhecendo o que queria fazer. Nesse novo tem poesia visual, mais firme e conceitual, influência forte de arte visual, principalmente do pós-guerra. E tem uma questão forte de poemas-crônica, microroteiros e coisas que eu ainda não tinha experimentado. É um livro conceitual. Eu coloquei que é um livro-galeria. Tanto é um álbum quanto um livro de poemas. Tem todos esses experimentos que eu não esperava fazer.

Leituras da Bel: O teatro se apresenta na tua vida e influencia a tua escrita poética?
Mailson: O teatro está na minha vida há quase 14 anos. É muito tempo. Muita coisa do que eu escrevo hoje trago do teatro. É interessante dizer que esse livro, passei muito tempo estudando, lapidando e labutando. E nesse período de lapidação levei para algumas salas de ensaio do meu grupo (CIA Teatral Criando Arte) para tentar trabalhar como dramaturgia. Nesse período de estudo, dentro da sala de ensaio, o texto saiu mais lapidado. Me ajudou. à cidade  em si nem tanto quanto esse próximo livro que vai sair ano que vem, que é o Passei pelas ruas de mim e de outros. É bem influenciado pela arte visual e a arte visual para mim deriva do teatro e da direção teatral. Comecei a escrever pela dramaturgia e depois parti para o verso. Tem uma ligação que não consigo nem diferenciar de onde vem um e de onde vem outro. Levo a poesia para a dramaturgia e trago da direção, da interpretação e de imagens teatrais para o verso.

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Livro à cidade, do cearense Mailson Furtado Viana, é obra do ano no 60º Prêmio Jabuti

Leituras da Bel: No à cidade, como você falou na premiação, foi responsável pela capa e pela diagramação, além de fazer a divulgação e produzir evento de lançamento. É difícil para um autor ficar sozinho nesses momentos e não ter a retaguarda da editora? Ou ter autonomia no processo tem as vantagens?
Mailson: Tem os pontos positivos. Eu tenho uma característica centralizadora em algumas ações. Que por um lado é positivo e por outro é negativo. Gosto de levar isso na rédea e fazer algumas coisas do jeito que eu quero. Mas por outro tem essa questão de que se a pessoa não for forte… Muitas vezes eu pensei em largar e desistir. Eu estou em uma profissão que me dá uma renda bacana em relação a de onde eu vim. Não tenho o que reclamar. Apesar de não ser rico, não tenho nada a reclamar. E pessoas que não teriam essa renda um pouquinho extra, como muitos que eu conheço, não se dispõe a lançar por que não podem. Eu falei isso ontem. As pessoas não vão tirar dinheiro para lançar um livro e deixar de comer. A editora faz falta quanto a isso. Alguém que te leva, que confia em ti, que acredita no teu trabalho. Encontrar essa instituição que acredita em ti e no teu trabalho é muito complicado. Faz falta nesse sentido. Por vezes, você está desanimado e pensa em desistir e, se está só, você desiste e aquilo fica por aquilo mesmo. É difícil rasgar o que o mercado que, entre aspas, é dominado por essas grandes instituições ou empresas ou autores, rasgar isso no sentido de ficar tudo restrito a aquelas pessoas e não se abrir o olhar para fora do umbigo. É um tanto cruel. Tem o ponto positivo como falei no início. Mas tem mais negativos do que positivos.

Leituras da Bel: E como você avalia a atual produção cearense de poesia?
Mailson: Sempre converso com os meninos. Principalmente com o Renato (Pessoa), com o Dércio (Braúna) e com o Bruno (Paulino) quanto a essa geração dessa última década, que faço parte dela, e tem uma produção rica. Quase todos anos temos indicações, e não só em poesia, mas em várias áreas da literatura. Estamos ricos. Acho fantástico o papel feminino na literatura cearense. Acho que não existe em canto nenhum. É lindo. É de um negócio fantástico e deixa o estado luminoso. Eu sou muito feliz em dizer que tem grandes poetas no Ceará. Kah Dantas, Anna K Lima e todo esse pessoal que vem produzindo e deixando o nosso mercado rico. E há também a descentralização da poesia cearense. Não está puramente em Fortaleza. Tem muita gente fazendo fora de Fortaleza, mas é difícil chegar. Essa dificuldade de chegar na capital. A gente sofre com isso. Não conseguir espaço em eventos e ser mais difícil, se vai lançar livro no interior não tem espaço no jornal da capital para divulgar. É uma barreira difícil de quebrar. Está se quebrando aos pouquinhos, mas ainda é difícil.

 

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