Leituras da Bel

Leia o texto “fio dental”, produção da escritora Gisela Gold

fio dental
–Por Gisela Gold

Ilustração de Ivylin Oliveira

Você passa o fio dental de dentro pra fora e de fora pra dentro.

Dentro do avião, a saudade cresce. Lá fora da janela, eu desapareço.

Algo tem que sair pra você poder entrar aqui.

Pra quem tem medo dentro, lá fora tudo é melhor.

Tô dentro!

Cai fora!

Estrangeiro é alguém de fora que quer entrar.

Memória é algo de fora que eu ponho dentro.

Tomei um fora. Aqui dentro sangra.

O povo de fora não sabe o que é morar aqui dentro.

E esse pavor de botar pra fora tudo isso aí dentro

Alguém sempre vai ficar de fora da festa.

Abre a janela, olha a vida lá fora.

Noves fora zero

Dentro de mim, o mundo inteiro

O autêntico nunca está fora de moda.

Isso está fora de cogitação!

Fora isso, topo tudo.

Dentro das minhas limitações, podemos negociar.

Ele está dentro do armário.

Não dou uma dentro.

Esse ai eu conheço, saiu de dentro de mim.

Cuidado com a rua lá fora.

Há tanta vida lá fora.

Sua inspiração é de dentro pra fora ou de fora pra dentro?

Respiro o ar pra dentro que depois vai pra fora.

Suspiro pelas meninas lá de fora.

Eu piro aqui dentro por tudo lá fora.

Deus está dentro ou fora?

Comer é pra dentro.

Gritar é pra fora.

Suplico aqui de dentro.

Nem ligo é da boca pra fora.

E lá se foi ganhar mundo à fora.

Clique e quando um pensamento ilumina aqui dentro.

A luz do sol está lá fora.

Fora preconceito!

Fora machismo!

Fora desigualdade social!

A fome lá fora não te tira o sono?

Gente com frio lá fora não te tira o sono?

Gente morrendo lá fora não te tira o sono?

***

Gisela Gold
40 na carteira. Às vezes 8, outras 80. É boa de briga. Ama divulgar gente boa e projeto bom, olhar e rascunhar crônicas em guardanapo de bar. É uma viciada em Mate Leão e informalidade, que flertou com a Psicanálise, o que abriu seu olhar para receber a diferença. Cometeu um livro de nome “Óbvio”, em 2001, e “Roupa de Poema” em parceria com um amigo, em 2010. “Alguém”, editado pela Quintal Edições, em 2019, a lança novamente ao mundo, aos vários mundos onde há a certeza: precisa escrever para não enlouquecer.

Ivylin Oliveira – ou apenas Aninha – é natural de Fortaleza, mas vive se mudando. Estudante do Técnico em Redes de Computadores do sistema estadual. Anda pensando na faculdade de artes visuais. Foi em um dia de ócio das férias de julho que fez do lápis seus pensamentos e do papel um bom ouvinte. É frequentadora da Biblioteca Comunitária Papoco de Ideias, que atende o Pici e os bairros do entorno.

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