Plínio Bortolotti

Para que serve o Ronda? Para que serve o 190?, se não atendem nem caso de criança sendo espancada?

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Por volta das 23h, talvez um pouco mais ou um pouco menos, desta terça-feira (16/11/2010), do meu apartamento ouço gritos de um adulto xingando uma criança. Os gritos aumentam, olho pela janela e consigo divisar, em uma casa térrea o adulto espancando a criaça, que pede “pelo amor de Deus” para o adulto parar. Consigo ver o adulto segurando a criança pelos cabelos.

Ligo para o 190 e, diante do começo da “entrevista” da atendente, corto: “Olha, tem um adulto espancando uma criança, é crime”. A resposta: “Não é assim não, precisamos saber se com a gente ou com o Conselho Tutelar”. PQP (não digo mas penso, onde ela vai achar alguém do Conselho Tutelar uma hora dessas e, mesmo achando, qual providência urgente que o caso exige o conselheiro poderia tomar). Bato o telefone e ligo para o Ronda do Quarteirão.

Pelo número 3457 1017, o número do carro que patrulha o meu bairro, falo com o soldado que me atende. Digo o caso, e a resposta: “É complicado”. Repito, “dentro ou fora de casa é crime bater em criança”. O soldado: “Eu sei”. Um pouco mais tranquilo, pensando que o militar saberia qual o seu dever, dou indicações precisas de onde onde ocorre tumulto e desligo o telefone. Fiquei esperando até por volta da meia-noite. Nada de Ronda.

A sorte, e nesse caso só se pode contar com a sorte, o espancamento foi se transformando apenas em palavrões. Mas poderia ter acontecido algo mais grave, se a violência contra uma criança já não houvera sido bastante.

Se o Ronda não pode perseguir suspeitos; e também não age como Polícia comunitária, para que serve esse negócio? Para o governador mostrar que tem carros bonitos e potentes desfilando pela rua? Para os policiais ficarem brincando de bate-bate com os carros, como mostrou a reportagem do O POVO (15/11/2010) Viaturas do Ronda lideram acidentes na PM?

Na verdade tanto o 190 como o Ronda parecem querer vencer o cidadão pelo cansaço. Eles jogam na loteria; se não acontecer nada (noves fora o espancamento de uma criança), o negócio cai no esquecimento; se acontecer algo mais grave, sempre haverá uma desculpa.

Ligo de novo para o carro do Ronda, por duas vezes. Iria dizer para os soldados que o caso tinha se acalmado, apesar da falta de atendimento – e que eles deviam ter um pouco mais de consideração com aqueles que ligam para eles. O telefone chama até desligar. Os caras deviam estar ocupados com alguma outra coisa.

O que me deixa mais emputecido é que fui um dos que defenderam o projeto Ronda do Quarteirão, pois vislumbrava que poderíamos ter uma polícia comunitária, não-violenta e solidária. Pois, obviamente, no caso, não queria que eles chegassem na casa na base do chute na porta, mas, creio que autoridade policial, com uma postura firme e legal poderia reduzir o sofrimento da criança e prevenir futuros casos.

Mas, pelo andar da carruagem, quero dizer das Hilux, se não houver um urgente correção de rota, será mais uma boa ideia a escorrer pelo ralo da incompetência e do descaso.

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7 Comentários

  • The Hunter disse:

    Por essa e mais outras que não votei no CID. Nesse estado está abandonado, a policia PM e PC está abandonada. Um dia desses eu estava querendo dormir e descansar bem pois iria fazer uma prova de concurso num domingo, adivinha ? Um militar fazendo uma festa deixou o som ligado a noite inteira e não teve denuncia que desse jeito. Que bom! Autoridades para que mesmo ?

  • Renato Carvalho disse:

    Ler a descrição desse tipo de coisa dói na alma. Imagino como você, que presenciou, deve estar se sentindo. E essa dor é multiplicada quando descobrimos que o poder público, ou seja, NÓS, a sociedade, está pouco se lixando para uma criança que está sendo torturada.

    As pessoas que atenderam seus telefonemas deveriam considerar um agravante terrível o fato de ser dentro de casa, se mobilizar imediatamente para acabar com a agressão e, só depois, parar para discutir razões e responsabilidades. Uma criança sofrendo nas mãos de quem ela mais confia para formar o seu caráter e sua personalidade é muitíssimo pior do que se fosse no meio da rua e o agressor fosse um bandido desconhecido.

    Talvez esses policiais tenham perdido, naquele instante, a oportunidade de evitar a formação de um novo agressor covarde. Um dia, essa criança será adulta, terá seus próprios filhos e (Deus queira que não) poderá tomar a sua própria criação como modelo para educá-los.

    Este mundo está doente. Nos últimos dias, fomos confrontados com uma série enorme de provas disso. Mais de 30 moradores de rua assassinados em Maceió, um empresário brincando de tiro-ao-alvo em outros miseráveis aqui mesmo em Fortaleza, cenas de agressões à crianças similares a essa que você narrou.

    É o mais forte sempre procurando pisar no mais fraco. Talvez porque, quando era criança, ninguém interveio quando pisaram nele…

  • Lucas disse:

    Devemos lembrar que o projeto RONDA DO QUARTEIRÃO é um bom projeto. O problema é que o próprio sistema tem forças de se transformar.

    Sei que há exceções mas, falando de um modo geral, antigamente o policial do ronda era educado, atencioso e respeitoso. Agora está autoritário e comodista.
    Existe uma coisa que transformar muita mente fraca: O PODER.

    Agora cabe ao governo transformar isso, não deixar essa bola de neve rolar montanha a baixo.

  • Miguel disse:

    Me desculpe mas se você realmente tivesse interessado no caso teria pelo menos juntado algumas pessoas para intervir pela criança. Principalmete depois de ter constatado o descaso do sistema público que, se você ainda não percebeu, é falido. Na Itália existe a conduta da Omertà que em poucas palavras designa como humilhação buscar ajuda a quem lhe trata com descaso. É triste uma situação dessas mas mais triste ainda é ver o desinteresse pelo “governantes”. Não votar neles é a melhor atitude.

  • Carlos disse:

    É uma covardia, bater em uma criança! Cadê o trabalho da PM, que poderia muito bem, tomar atitudes! É uma vergonha.

  • Antônio disse:

    Plínio, o caso é apenas o retrato do tipo de governo que temos.Existe uma verdadeira ausência do Estado na prestação dos serviços públicos essenciais e obrigatórios.O pior é que esse tipo de governo foi referendado nas últimas eleições.O pior ainda, a meu sentir, é que tudo que foi mostrado como prestação de contas ,como perspectiva do futuro governo é mentira deslavada,escancarada e o eleitor não desejou perceber.Os jornais de hoje trazem várias situações que não foram,pelos próprio jornais,questionadas no período eleitoral,passando a ser ,novamente a meu sentir, cúmplices com a enganação.O mesmo tipo de governo passa pelo Município de Fortaleza,esse com o agravante da destruição física da cidade.Já passei por situação pior, acho que relatei no seu blog, quando ne arrisquei para avisar a um policial de um caminhão transitava como um louco na W.Soares e não encontrei nenhum.Resultado:atropelou e matou um pobre coitado.Tentei também o 190,liguei até para um programa policial transmitido no horário, nenhum palavra.

  • Leonardo Ribeiro disse:

    Miguel, para intervir teria que se invadir o domícilio, em que a vilania ocorria. Seria, assim, uma outra infração.

    Feliz cada novo dia…

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