Plínio Bortolotti

“A praga do politicamente correto”: Ministério Público quer censurar dicionário

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Meu artigo publicado na edição de hoje do O POVO.

Houaiss eletrônico (Uol): observe, na coluna à esquerda, que o verbete "cigano" foi suprimido, mas o supressor esqueceu-se da palavra "ciganear", que mantém os sinônimo pejorativos de "cigano" (clique para ampliar)

A praga do politicamente correto
Plínio Bortolotti
Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O POVO

Qualquer um que vá a alguma solenidade já deve ter ouvido o orador iniciar a sua fala saudando “a todos e a todas”; ou textos em que se usa o símbolo arroba (@) em algumas palavras para, supostamente, dar-lhes um gênero “duplo”, masculino e feminino, assim: “operári@s”, “médic@s”. As ONGs costumam usar um dialeto quase incompreensível para se referir às mais diversas situações.

Admito que algumas palavras adquirem significados carregados de preconceito – e que é preciso substituí-las no uso corrente. É justo não mais usar “mirim” ou “trombadinha” para classificar crianças e adolescentes que cometem infrações. Mas querer nomear moradores de rua como “pessoas em situação de rua”, já é um pouco abusivo. Se se levar em conta todas as “lições” tornar-se-á impossível ler um texto, a não ser aos tropeções.

Agora, a praga do politicamente correto quer censurar o dicionário Houaiss, pois um dos sinônimos, no verbete “Cigano” (com alerta de que são termos pejorativos), é “que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador”.

O Ministério Público Federal, de Minas Gerais, entrou com processo para retirar o dicionário de circulação, pois o responsável pela obra “não atendeu recomendações de alterar o texto, como fizeram duas editoras com seus dicionários”.

Se prevalecer o Index Librorum Prohibitorum do MP, estudiosos de obras literárias no futuro ficarão sem saber o significado de determinados termos, pois todos os sinônimos “politicamente incorretos” serão varridos dos dicionários.

Os doutores do MP se esquecem que dicionários não criam palavras: registram-nas, com seus respectivos sinônimos, de acordo com o surgimento delas na fala. Proibir que reproduzam determinados sinônimos seria equivalente a assassinar o portador de más notícias, ou melhor, de notícias politicamente incorretas.

PS. Na segunda-feira consultei o Houaiss eletrônico (portal Uol), no qual confirmei os sinônimos da palavra “cigano”. Ontem, a palavra já fora suprimida do dicionário. Veja na reprodução acima.

Veja explicação oficial do Dicionário Houaiss sobre o termo “cigano”.Informe oficial do Dicionário Houaiss explicando sobre o termo “cigano” [postado neste blog em 5/3/2012]

Os grupos minoritários têm toda razão em lutar pelos seus direitos. Apoiamos as suas cobranças como sempre o fizemos. Não é sem razão, portanto, que todos os textos ligados ao tema cigano (ciganão, ciganagem, ciganar, ciganear, ciganaria, ciganice, ciganada, gitano), e também a outras minorias e grupos sobre que incide preconceito, foram alterados no Grande Dicionário Houaiss para a sua 2ª edição. Estas entradas e pelo menos outras 200 mil sofreram releitura para aperfeiçoamentos, mudanças e atualização durante os dez anos em que trabalhamos sobre a nova edição. Nossa 2ª edição ficou pronta no fim de 2011, mas ainda não houve como imprimi-la e publicá-la. Ela existe no nosso banco de dados, por enquanto.

A questão dos sentidos pejorativos ligados a algumas palavras é inconfortável e precisa ser esclarecida. Os dicionários não criam termos na língua; eles apenas refletem, como espelhos, as ocorrências com que se deparam, não os usando, portanto, com intenção de atacar, ferir ou menosprezar pessoas ou grupos. As acepções da língua que revelam preconceitos são registradas pelos dicionários por existirem por vezes há séculos na língua e na literatura. Mas tais verbetes vêm, modernamente, sempre acompanhados de uma observação sobre o fato de que tal acepção é pejorativa, frequentemente até com uma explicação do por que desse preconceito.

Veja, por exemplo, como está o verbete cigano, desde 2008, na nossa 2ª edição a publicar:

cigano adj. (1521 cf. GVic) 1 relativo ao ou próprio do povo cigano (autodenominado rom); rom, zíngaro 2 m.q. 1ROM ■ adj.s.m. 3relativo a ou indivíduo dos ciganos, povo itinerante que emigrou do Norte da Índia para o Oeste (antiga Pérsia, Egito), de onde se espalhou pelos países do Ocidente; zíngaro 4 p.ext. que ou aquele que tem vida incerta e errante 5 p.ana. vendedor ambulante de quinquilharias; mascate 6 (1899) pej. que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador ☞ ver USO a seguir 7 pej. que ou aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina ☞ ver USO a seguir 8 que ou o que serve de guia ao rebanho (diz-se de carneiro) 9 LING m.q. ROMANI ◉ USO as acp. 5 e 6 resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba por basear-se em ideias errôneas e preconcebidas sobre as características deste povo que, no passado, levava uma existência nômade ◉ ETIM fr. cigain (sXV, atual tsiganeou tzigane, estas por infl. do al. Zigeuner), do gr.biz. athígganos’intocável’, nome dado a certo grupo de heréticos da Ásia Menor, que evitava o contato com estranhos, a que os ciganos foram comparados quando de sua irrupção na Europa central; cp. tur. cigian, romn.zigan, húng. cigány, it. zingano (a1470, atual zingaro); f.hist. 1521cigano, 1540 çigano, 1708 sigano ◉ SIN/VAR na acp. 2, como subst.: calom ◉ COL bando, cabilda, ciganada, ciganagem, ciganaria, gitanaria, maloca ◉ HOM cigano(fl.ciganar); cigana(f.)/ cigana(s.f.)

Nenhum dicionário deve ocultar empregos preconceituosos de palavras quando se vê diante deles, por registrarem exatamente o que encontram, tanto dentro do padrão culto da língua como eventualmente no informal. Os dicionários não inventam palavras nem acepções. Funcionam como um espelho em que se refletem a realidade da língua e os sentimentos de seus falantes, ora com sua beleza e simpatia, ora com sua crueldade, com seus sentimentos e atitudes desfavoráveis para com minorias etc.

Ninguém supõe eliminar dos dicionários palavras como guerra, tortura, violência, pedofilia com fim de conter ou impedir que tais tormentos continuem a existir. Fazê-lo seria apenas varrer para debaixo do tapete o que nos envergonha, mas sem qualquer ação preventiva ou eliminadora do mal que tais conceitos e outros preconceitos acarretam. Que fazer nos dicionários em tais casos, então? Registrar a palavra ou a acepção e dizer claramente, quando é o caso, que ela é pejorativa e preconceituosa. É como fazem os dicionários modernos em todo o mundo.

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6 Comentários

  • Lima disse:

    Oi Plinio,

    neste caso, fico do lado do MP, mesmo concordando que o politicamente correto as vezes exagera na dose.

    Cigano eh o adjetivo usado pra designar um povo, nao soh um modo de vida. Boa parte desse povo, uma das vitimas menos ilustres do nazismo, vive hoje na Romenia. Nao sei nada sobre eles no Brasil.

    Sobre o povo cigano ouve-se muito pouco, ficando mais conhecidos os casos de mal feitos por eles, como o assassinato a pancadas do jogador norte-americano de basquete Chauncey Hardy num bar em Bucareste, ou pequenos roubos realizados por membros de suas comunidades espalhadas pela Europa. As violencias de que sao vitimas, como as perseguicoes na Republica Tcheca, nunca recebem muita atencao.

    Dito isto, acho que as descricoes dos ciganos menos lisonjeiras contidas nos Houaiss acarretam prejuizo a um povo inteiro e devem ser evitadas. Imaginemos se houvesse um entrada dizendo que brasileiros sao preguicosos natos, ou que judeu eh todo aquele que eh ganancioso. Seria um escandalo, nao?

    Tem um texto interessante sobre os ciganos no der Spiegel (em ingles)

    http://www.spiegel.de/international/europe/0,1518,786495,00.html

    O texto eh longo, mas eh interessante a parte em que um jovem cigano, que vive com cerca de 100 euros por mes pra ele, a esposa e dois filhos, retrata que simplesmente nao consegue emprego. Mesmo trabalhos duros como no mercado negro da construcao civil sao dados preferencialmente a ucranianos (de pele clara), do que a ciganos. Daih nasce o problema social que gera os pequenos crimes. Estes acabam por gerar a violencia contra os ciganos. Ele arremata: “Sou um cigano. Se [a violencia] aumentar muito, vou embora pra outro lugar.”

    Abs.,

    • Plínio Bortolotti disse:

      Caro Lima,

      Dicionários penas registra temos em uso: não inventam nada. No próprio Houaiss, um dos sinônimos para “judeu” (pejorativao) é “pessoa usuária, avarenta”; para “judiaria”, pode-se ler: “ato de zombar de alguém; chacota, judiação, zombaria” e “ato de maltratar alguém física ou moralmente, judiação”. O clássico “Vocabulário popular cearense”, anota no verbete em “judeu”: “Malvado, perverso” e cita uma obra de João Clímaco Bezerra, “Sol posto”, em que o termo é usado nesse sentido: “[…] embora os meninos metam-me pavor, causam-me a impressão de judiaria, de que vão me atirar pedras”. Raimundo Girão como pesquisador e dicionarista, deveria deixar de registrar essas acepções, que são de uso corrente e popular (ou pelo menos foram em determinado momento)? E se um pesquisador, no futuro, vir esse termo escrito em um livro, como saberá em que sentido foi usado?

      Agradeço seu comentário,
      Plínio

  • Lima disse:

    Caro Plínio,

    entendo a sua preocupacao com o registro das nuances da língua, de forma a serem apreciados no futuro. Ainda assim, tenho ressalvas quanto ao registro, em dicionários, de sinônimos polêmicos.

    Pesquisando um pouco sobre a palavra judiar, descobri que sua origem nao parece bem determinada. Alguns dizem que vem de Judas, outros de violências que o povo judeu *sofreu* ao longo da História. Com o passar do tempo, os judeus teriam passado de vítimas (objeto direto) a algozes (sujeito) das maldades contidas no sentido do verbo. Mas a questao é se tal sentido deve, ou nao, ser registrado.

    Acho que aqui entra o bom-senso. Convenhamos que riscar a palavra judiar do dicionário seria demais. Até porque pouca gente faz a associao com o povo judeu. Mas registrar o preconceito de parte da populacao num documento como um dicionário me parece errado porque ajuda a propagar o preconceito e lhe confere certa aceitabilidade. O alerta de pejorativo é inútil, pois o caráter pejorativo está explícito, e funciona apenas como uma maneira do dicionário se esquivar, como quem diz: “Num fui eu quem falou, to só passando pra frente”.

    Enfim, acho que “me doí” um pouco com o povo cigano. Sua extincao seria uma perda cultural enorme pra humanidade, mas ninguém parece se importar e o preconceito arraigado é um dos principais motivos disso.

    Abs.,

    P.S.: Vá desculpando pela falta de acentos, especialmente numa discussao sobre língue portuguesa. Preciso de um teclado novo (ou de coragem pra adaptar o velho)…

  • Rogério disse:

    Pessoas contaminadas pelo “politicamente correto” tentarão coibir até mesmo o livre pensamento. Parabéns pela matéria.

  • Luis disse:

    Lista de pessoas que se sentem ofendidas com o politicamente correto:
    1. Babacas em geral
    2.
    3.
    4.
    5.

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