Plínio Bortolotti

Assim começa o esculacho urbano

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Reprodução da coluna “Política”, edição de 24/5/2014, do O POVO.

Assim começa o esculacho urbano
Plínio Bortolotti

Valet, palavra das línguas inglesa e francesa – não dicionarizada em português -, significa “criado” nas duas línguas, um empregado pessoal. No Brasil dos macaquitos – como diriam os argentinos – a palavra passou a ser usada como sinônimo de “manobrista”, pois os marqueteiros devem ter achado essa palavra feia ou muita “velha” para ser do agrado da seleta clientela. Nem se preocuparam em aportuguesá-la, pois um “valet” deve valer mais do que um valete.

O serviço já existe, há tempos, pelo menos pelas bandas de São Paulo e Rio. Para quem ainda não sabe, “valets” são aqueles sujeitos que ficam embaixo de um guarda-sol – mesmo que seja de noite -, em frente a um estabelecimento comercial, normalmente um restaurante, oferecendo, sob paga, a guarda do seu carro, enquanto o proprietário se diverte ou faz compras.

Pois bem, a moda dos valetes está migrando para Fortaleza, sob licenciamento da Prefeitura, como noticiou este jornal na edição de ontem. O “gancho” (jargão do jornalismo utilizado para a situação que justifica uma matéria) foi um carro, deixado com um com desses valetes – e que foi fotografado estacionado sobre a calçada, em local obviamente proibido. A foto foi parar no Facebook, para surpresa do dono do veículo.

Porém, estranho foi o esclarecimento de Vítor Ciasca , presidente da Autarquia Municipal de Trânsito (AMC), sobre o funcionamento dessas empresas de manobrismo. Ele disse que as empresas de valete não precisam dispor de garagem ou estacionamento, e que os carros podem ser estacionados nas vias públicas, ressalvando, porém, para alívio geral: “Mas somente onde é permitido”.

Espere aí. Quer dizer que uma empresa, além de ganhar concessão para pôr um escritório (o guarda-sol) na calçada, de quebra, adquire o direito de usar a rua para propósitos privados? Estou entendendo bem: uma empresa ganha dinheiro vendendo espaço público, sob os auspícios da Prefeitura? Se alguma autoridade pudesse esclarecer, gostaria de ouvir os argumentos.

E, por qual razão, ocupei tanto espaço de uma coluna com o título “Política” para falar de estacionamento? Por dois motivos: 1) Porque o espaço público é uma questão política; 2) por que é assim que começa o esculacho, com autoridades autorizando um tipo de serviço que não tem estrutura nenhuma, e lhe dão o direito de explorar o já congestionado espaço urbano.

Uma cidade com lei diria o seguinte: “O senhor quer abrir um serviço de manobrista (desculpe), de valet, sem problema, caro empresário. Então, o senhor terá de arrumar um estacionamento particular para guardar os carros de seus clientes”. Porque, sem isso – acrescentaria um funcionário público zeloso – não tem negócio.

(O mau hábito de ocupar calçada deve ter começado assim, distraidamente – depois virou problema. Os valetes, escrevam, logo se transformarão em outro.)

A propósito, aqueles sempre dispostos a queixas contra os desvalidos “pastoradores” de carros, vão se opor a esses flanelinhas de luxo?

CENSURA
Discretamente, Paulo César de Araújo lançou esta semana o livro O réu e o rei – Minha história com Roberto Carlos, em detalhes (Companhia das Letras), em que conta o caso da censura à sua obra anterior Roberto Carlos em detalhes (Planeta), proibida de circular pela Justiça, em processo movido pelo cantor. Para evitar riscos de ver o livro proibido, a editora manteve sigilo até o lançamento. Havia o temor de que Roberto Carlos fizesse nova investida censória.

Ao justificar a proibição de sua biografia, escrita por Paulo César, um dos argumentos de Roberto Carlos foi que o direito de escrever sobre sua vida pertencia a ele. Agora, Paulo César diz que está contando a sua própria história, a de um menino pobre no interior da Bahia, que sonhava comprar um disco de Roberto Carlos.

A história se conclui(?) com Paulo César revelando os bastidores da proibição do livro; com o encontro do “menino pobre” com seu ídolo, nas barras de um tribunal.

HONORIS CAUSA
Sobre a nota “honoris causa” (21/5), na qual anotei: “Lula deve ser hoje o brasileiro com mais títulos universitários do país”, a respeito da homenagem que o ex-presidente recebeu de uma universidade boliviana, me escreve o leitor Leandson Sampaio. Ele diz que o brasileiro mais distinguido com o doutor honoris causa foi o educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), com 41 títulos. Lula, diz ele, vem em segundo, com 28 distinções.

FIRMO
Na terça-feira a coluna volta aos cuidados de seu titular, Érico Firmo. Espero que tenha sido bom para vocês.

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