Plínio Bortolotti

Tchau, querida; chega mais, querido

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Reprodução do artigo publicado na edição de 21/4/2016 do O POVO.

Hélio Rôla

Tchau, querida; chega mais, querido
Plínio Bortolotti

Vão ter de buscar outra desculpa os que se valiam do argumento, “primeiro Dilma, depois os outros”, à guisa de explicação do porquê denunciarem a corrupção do PT, esquecendo-se estrategicamente de Eduardo Cunha (PMDB) e outros do mesmo naipe.

Cunha, réu no Supremo Tribunal Federal, saiu fortalecido do processo. E Michel Temer – o vice que ambiciona ser titular – não existe sem Eduardo Cunha e sua corriola. Assim, o acordão para salvar o presidente da Câmara já está em pleno andamento.

(O esgar de Cunha, na hora da votação, imagino, não era dirigido a seus inimigos, mas uma espécie de riso interno, tipo “essa é a minha turma, deles conheço a alma”. Foi esse baixíssimo clero que Cunha arrebanhou com milhões de carinhos, formando a maior bancada da Câmara.)

O primeiro passo já foi dado: trocou-se um integrante da Comissão de Ética para dar maioria a Cunha e a investigação foi limitada à acusação de ele ser “apenas” mentiroso, ficando fora os indícios de que também é corrupto. Portanto, uma punição mínima é o máximo que se pode esperar.

Ao mesmo passo de cágado, tramita no STF o pedido de afastamento de Cunha da presidência da Câmara, requerido pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que relacionou uma dezena de motivos para defenestrá-lo.

Ao preço de sua salvação, Cunha será o punho de ferro de Michel Temer para ministrar todos os remédios amargos que o “mercado” quer impor ao país, incluindo a redução de benefícios sociais e afrouxamento nas leis trabalhistas. Corruptos úteis serão poupados e a corrupção sairá da ordem do dia e das manchetes dos jornais.

É de se duvidar que a direção do movimento pró-impeachment mobilizará as ruas para pedir a cabeça da dupla Temer-Cunha e de outros suspeitos; ou, ainda, se haverá sinfonia de panelas contra eles.

Dessa forma “tchau, querida” para Dilma representa um “chega mais, querido” para Cunha – se Temer chegar lá, refém do presidente da Câmara.

Enquanto isso, o pato da Fiesp estará rindo dos inocentões que acreditaram que a luta era contra todos os corruptos.

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4 Comentários

  • Alan E. dos Anjos disse:

    Parabéns pelo tratamento isento sem fechar os olhos da situação real por que passamos.
    Acho interessante que na nossa “isenção” do dia a dia somos chamados de petralhas, vendidos etc.
    Acompanho seus comentários na CBN e os considero os melhores dentro de toda mídia nacional.
    A CBN e O Povo estão bem representados.
    Abraços.

  • carlos disse:

    Algumas perguntas só a posteridade poderá – talvez – responder.

    Uma é já clássica: como, sob provas esmagadoras de achaques e roubalheiras, Eduardo Cunha comandou – e manipulou – todo o processo de impeachment na Câmara dos Deputados?

    O resultado dessa aberração foi a histórica sessão da Câmara que desmoralizou os deputados federais não apenas perante os brasileiros, mas diante do mundo.

    Uma segunda pergunta, não menos vital, é esta: o que o STF tinha de tão importante para fazer, nestes meses todos, para não encontrar tempo para apreciar o pedido de afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara?

    A saída de Cunha foi pedida ao STF em 15 de dezembro passado pelo procurador geral Janot. A reivindivação foi entregue ao ministro Teori Zavascki. Quatro meses depois, uma eternidade para os padrões de turbulência destes dias, Teori ousou dizer que não há prazo ainda para a avaliação do caso Cunha.

    É uma loucura, é uma insanidade, é uma estupidez, é uma irracionalidade.E é uma bofetada na sociedade. Os eminentes ministros têm, por acaso, alguma coisa de maior relevância para avaliar do que um assunto que não apenas paralisou o país como dividiu em duas a sociedade?

    Não há explicação possível para tamanha agressão à lógica e para tamanho dano ao Brasil.

    Observe a agenda do STF. Tente achar qualquer coisa mais preciosa e urgente do que o caso Cunha.

    Não poderia haver propaganda pior contra o STF e contra o Judiciário do que a morosidade indefensável com que ela tratou o pedido de afastamento de Cunha.

    É como uma equipe médica que espera o paciente morrer para tomar alguma atitude que poderia salvá-lo.

    Ver Eduardo Cunha julgado está e estava faz tempo longe de ser um anseio petista e da esquerda. Mesmo os analfabetos políticos que saem às ruas de camisa amarela não suportam mais ver Cunha em gozo de extrema tranquilidade depois de ter feito tudo o que fez e faz.

    Uma absoluta falta de transparência na montagem da agenda contribuiu para que o STF arrastasse à exaustão uma decisão sobre um assunto tão premente para o país.

    Num mundo menos imperfeito que o nosso, o presidente do STF viria a público dar satisfações sobre o caso Cunha.

    Sobretudo, diria quando os juízes iriam julgar o pedido de afastamento, e explicaria a razão da data. Não no português ridículo e pomposo em que se expressam os eminentes juízes, mas em linguagem acessível a todos.

    Num livro que li sobre a Suprema Corte Americana, uma autoridade diz que não existe decisão mais importante para um presidente do que a escolha de um juiz para compô-la.

    Fica brutalmente exposta a inépcia dos presidentes que escolheram os juízes que formam nossa Suprema Corte, descontadas as raras exceções.

    Não é apenas o poder político que se mostrou putrefato nesta crise. Também o Judiciário provou não estar à altura de um país que aspira a ser civilizado.

    Reformar a Justiça é tão imperioso quanto reformar o sistema político, como demonstra a lentidão criminosa como foi tratado o pedido de afastamento de Eduardo Cunha.

  • carlos disse:

    Bom, nessas horas dá pra perceber que além de ser acovardado, o STF é subornado e só quer ser endinheirado, cada vez mais. Por que eles precisam de tanto mais se já ganham tanta grana? Querem viajar toda semana em aviões classe A e cadeiras especiais pra comprar ternos em Miami? Querem ter seus próprios jatinhos particulares, se já não os tem?
    Lembro que o governo Dilma vetou heroicamente esse aumento perverso e meritocretino. Gostaria de saber quais foram os deputados que votaram pela derrubada do veto presidencial; provavelmente há uma enorme porcentagem deles que “coincidentemente” votou sim ao golpe.
    É triste e horrorosamente humilhante ver que enquanto muitos precisam economizar, endinheirados querem esmagar ainda mais os mais pobres e os cofres do país! Enquanto Dilma, Lula, o PT e outros partidos e parlamentares de esquerda trabalham para melhorar o país, o STF, a imprensa bilionária da TV, jornais, rádios, redes e revistas, aliada aos golpistas da oposição só trabalham contra o país e a favor de si mesmos; roubam dos pobres e dão a si próprios, invertendo a lógica de Robin Hood.
    Na série Star Treck, Spock (não aquele coxinha mega-sena do DCM…) disse que a necessidade de muitos superam a de alguns. Para o STF, tucanos, biliomídia, bancada BBB, PMDBostas, DEMaogogos e correlatos golpistas, sua necessidade de poucos sempre supera a de todos.

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