Plínio Bortolotti

O que faz uma boa escola pública?

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 1º de Maio de 2016 do O POVO.

CarlusO que faz uma boa escola pública?
Plínio Bortolotti

Recebi do professor André Haguette o livro “Dez escolas, dois padrões de qualidade – Uma pesquisa em dez escolas públicas de ensino médio do Estado do Ceará”, assinado por ele, em parceria com Márcio K. M. Pessoa. Para escrever a obra, os autores visitaram as cinco escolas mais bem-sucedidas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem, 2011) e as que ficaram nos últimos lugares, analisando-as a partir da seguinte pergunta: “O que têm as escolas de alto desempenho no Enem que falta às escolas de desempenho precário?”

Valendo-se de entrevistas e questionários – aplicados a alunos, professores e diretores – chegaram às principais características das escolas com bom desempenho: 1 – Desejo de aprender (os alunos têm “satisfação em frequentar a escola”.); 2 – Autodisciplina coletiva (a disciplina é “interiorizada e sem guardiões, nem vigilância”.); 3 – Tempo letivo (os professores aproveitam 40 a 45 minutos do tempo de 50 min previstos para as aulas); 4 – Escola de tempo integral (além do aproveitamento do tempo são passadas tarefas para casa, que demandam de uma hora a uma hora e meia para concluí-las); 5 – Núcleo gestor (a preocupação dos dirigentes é “totalmente voltada para o aspecto pedagógico e didático”.); 6 – Professores motivados (apesar dos problemas, os professores demonstram entusiasmo com a profissão, com “baixíssimo” índices de atrasos e faltas). Essas características criam um “clima escolar” que contagia positivamente alunos, professores e direção das escolas.

As escolas com péssimo desempenho apresentam atributos inversos a esses. Nas escolas mal avaliadas, por exemplo, em uma aula de 50 minutos, cerca de 20 minutos são perdidos antes que a aula comece, efetivamente.

O perfil socioeconômico dos estudantes das escolas, tanto as de bom como de mau desempenho, é parecido: famílias com renda de menos de dois salários mínimos, pais com escolaridade precária, a maioria inscrita no programa Bolsa Família. Portanto, esse não seria um fator limitante do aprendizado.

O estudo identifica também graves problemas que contribuem para o mau desempenho das escolas públicas: o baixo salário dos professores; a má formação nas faculdades e, depois, a ausência de instrução continuada por parte da Secretaria da Educação do Estado; e a figura do “professor temporário”, contratado a título precário, pelo prazo de um ano, sem garantias trabalhistas. Portanto, não criam vínculo nem com os alunos nem com a escola. Os pesquisadores classificam como “vexatórias” as condições de trabalho desses professores.

Em um “Posfácio crítico”, a professora Eloisa Maia Vidal acrescenta a diferença que pode fazer uma boa gestão escolar. Para ela, a “imagem que se pode construir sobre a gestão do grupo de escolas com baixo resultado no Enem é que os gestores encaram o desejo de aprender, disciplina, tempo letivo, etc., como dados de uma realidade sobre a qual não há nada a fazer”. Mas, segundo a professora, a literatura internacional aponta que “bons diretores permitem melhorar os resultados de desempenho dos alunos”.

Em seu conjunto, o livro faz um breve, porém sólido, inventário do que funciona e do que precisa melhorar no ensino público. Pode servir de bússola para alunos, professores, diretores e para a Secretaria da Educação, apontando alguns bons caminhos para melhorar o ensino público no Ceará.

NOTAS

Encontro
Encontrei o professor André Haguette na FA7 (Faculdade 7 de Setembro), quando participamos, como debatedores, de um encontro que reuniu cerca de 500 estudantes, para falar sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Conversa
À saída, disse-lhe que era leitor dos artigos que ele publica neste jornal, principalmente, os que abordavam o tema educação. Ele me disse que acabara de lançar um livro sobre o assunto – e me presenteou com um exemplar da obra.

Livro
O livro foi publicado pela Imprensa Universitária (UFC). A ideia de produzi-lo surgiu depois que os autores leram uma reportagem no O POVO sobre as escolas com melhor desempenho no exame do Enem de 2011.

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2 Comentários

  • carlos disse:

    Uma boa escola deve oferecer a possibilidade de aquisição de conhecimento ao estudante em um lugar onde ele se sinta bem e, por isso, tenha mais disposição para aprender, fazer amigos, se relacionar e explorar a diversidade de experiências à sua disposição. Uma instituição que proporcione este contexto à criança e ao jovem será um bom lugar para eles. A qualidade do ensino oferecido também é um atributo fundamental.

    Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), uma boa escola é aquela em que:

    – existe um clima favorável à aprendizagem;

    – os professores e gestores são líderes animadores;

    – a violência é substituída pela cultura de paz;

    – existe um bom currículo

    Ao oferecer afeto, lazer e ensino, com conhecimentos, brincadeiras, cuidados com a saúde e práticas de formação artística, cultural e esportiva, essa escola investe na formação integral do aluno.

    E a escola para jovens?
    No artigo Entre a escola e os jovens – disponível no canal Educação do portal Terra, em Onda Jovem – a socióloga Ana Paula Corti, autora dos livros Diálogos com o Mundo Juvenil: Subsídios para Educadores e Encontro das Culturas Juvenis com a Escola , explica que há uma distância real e simbólica entre a escola e os jovens e que não há explicações fáceis nem rápidas frente a um problema dessa magnitude. Esse é o grande desafio do ensino médio.

    “As muitas escolas que têm adotado a estratégia do isolamento não têm obtido resultados positivos; ao contrário, muitas vezes agravam o problema. Providências como erguer os muros, aumentar as grades, exercer maior controle da entrada e saída de estudantes, proibir a entrada de aparelhos eletrônicos, bonés, instrumentos musicais etc., apenas tentam (geralmente em vão) resgatar um modelo escolar rígido, que já não funciona”, diz ela.

    Nesse artigo, Ana Paula reflete que o problema não está na invasão da escola pelos elementos externos, e sim nas dificuldades que ela tem de se organizar a partir do contexto atual, da realidade social e das características dos estudantes atendidos.

  • Jose disse:

    Ótimos textos
    Sempre que possível
    Estamos nos deliciando
    Com essas publicações
    Gosto muito de receber via
    Email reflexões sobre educação
    E política.

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