Política

Camilo é 1º governador a recorrer a Bolsonaro para conter crise na segurança

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Governador Camilo Santana, do PT, pediu ajuda de tropas federais para combater facções no Estado (Foto: Fábio Lima/O POVO)

Apenas 48 horas depois da sua posse, a primeira crise bate à porta do governador Camilo Santana (PT). E na sua área mais sensível: a segurança.

A série de atentados registrados desde a madrugada contra pelo menos dez ônibus e um viaduto, além de duas casas, obrigou o governador a pedir ajuda ao Governo Federal.

O Ceará é o primeiro estado do País a recorrer à gestão de Jair Bolsonaro (PSL) na tentativa de debelar problema de repercussão nacional: as facções criminosas.

É um teste para saber se, sob o novo presidente, eleito principalmente por suas ideias na segurança, a cooperação com os estados será efetiva ou apenas retórica de campanha.

Camilo participou recentemente de reunião com o ministro da Justiça Sergio Moro, com quem conversou sobre a necessidade de transferência de líderes de organizações criminosas das unidades estaduais para as federais.

Hoje, o petista voltou a procurar o ex-juiz, agora para solicitar o auxílio de tropas federais. Ainda não se sabe como será atendido e em que quantidade, mas, independentemente disso, é certo apostar que Bolsonaro deve se empenhar em transformar essa ação numa vitrine de seu rigor contra o crime.

Além de colocar em andamento uma ação conjunta entre Governo Federal e Governo Estadual, este chefiado por um petista que boicotou a posse presidencial, essa força-tarefa solicitada por Camilo é um laboratório para o próprio governador.

Não há dúvida de que os ataques em Fortaleza e Caucaia são retaliação às declarações recentes do secretário da Administração Penitenciária, Mauro Albuquerque, empossado dois dias atrás.

Ainda na cerimônia no Palácio da Abolição, na terça-feira, o policial civil disse que não reconhecia as facções, faria uma operação “pente-fino” nas unidades do Ceará para barrar e apreender celulares e não seguiria modelo de divisão de presos por penitenciárias dominadas por facção.

O contragolpe demorou apenas um dia. Veio sob a forma escrita – cartas deixadas nos locais dos crimes informando que os ataques continuariam se o governo insistisse em manter Albuquerque e sua nova política – e também prática – com os incêndios de veículos coletivos e explosões da viga de um viaduto.

O “salve”, ao que tudo indica, foi disparado do sistema penitenciário, sob a responsabilidade de Albuquerque e que concentra hoje cerca de 28 mil internos distribuídos em grande parte conforme os laços que dizem ter com as facções criminosas.

Neste momento, a resposta do Governo tem múltiplas consequências, todas cruciais para o futuro do petista.

Camilo pode reforçar as diretrizes de Mauro Albuquerque de “tolerância zero” nos presídios, o que certamente aumentaria a temperatura da crise, com a qual o Abolição teria de lidar por muito tempo ainda, criando desgaste político num segundo mandato para o qual reelegeu-se com quase 80% dos votos.

Ou pode ensaiar um recuo estratégico.

Por enquanto, Camilo não parece disposto nem a desautorizar seu auxiliar nem a voltar atrás.

Pelo contrário. O pedido de socorro ao Planalto representa uma encruzilhada no enfrentamento às facções. É, talvez, o maior desafio de governos recém-saídos das urnas, que pode fazer contracenar dois ex-adversários.

Afinal, general Guilherme Theophilo, hoje secretário da Segurança Nacional, a cargo de quem se encontra a coordenação das tropas federais, foi derrotado pelo governador petista na disputa pelo Abolição em outubro passado.

Três meses depois, ambos precisarão trabalhar juntos contra um inimigo comum, que lançou nas últimas horas um forte ataque contra as instituições que eles representam.

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