Sincronicidade

Uma biblioteca espírita

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Proibir um livro é sinal de que se o teme.

Allan Kardec

[Kardec, Allan. Catálogo racional: obras para se fundar uma biblioteca espírita. Tradução de Julia Vidili. – Ed. fac-similar bilíngue histórica. – São Paulo: Madras: USE, 2004, p. 85.]

Gostaria de me reportar hoje a um livrinho tão pequeno quanto valioso para os estudiosos do Espiritismo. Refiro-me ao Catálogo Racional: obras para se fundar uma biblioteca espírita. Última publicação de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, o Catálogo Racional veio a público em 1869, ano da morte do autor. Inicialmente foi distribuído como suplemento da Revista Espírita. Apesar de ter merecido seguidamente duas reedições e fac-símiles, seria, posteriormente, relegado ao esquecimento. Em 1985, por iniciativa do argentino Florentino Barreira, foi publicada uma edição fac-similar a partir de um original preservado na Sociedad de Estudos Psicologicos Vida Infinita. Seguindo a mesma ideia, a Editora Madras publicou, dezenove anos depois, a edição em língua portuguesa aqui comentada.

A publicação da Madras saiu em edição bilíngue, trazendo o original fac-similar em língua francesa. A obra original é divida em dois segmentos. O primeiro, Biblioteca Espírita, está subdividido em: I – Obras fundamentais da doutrina e espírita e II – Obras diversas sobre o Espiritismo ou complementares à doutrina. O segundo é dedicado às Obras contra o Espiritismo. A edição traz, ainda, dois ótimos textos introdutórios de autoria, respectivamente, de Eduardo Carvalho Monteiro, Coordenador da Madras Espírita, e de Florentino Barrera, responsável pela edição argentina, os quais situam muito bem o leitor no contexto da obra. A edição foi enriquecida, ainda, com diversas fotografias de autores comentados por Allan Kardec.

A leitura do livro deixa claro o quanto Allan Kardec estava atento a tudo o que se publicava na época sobre o Espiritismo. Sua preocupação consistia não apenas em divulgar as obras que servissem de apoio à doutrina da qual fora o maior expoente, mas, inclusive, em apontar aquelas que a contestavam. A propósito, vale a pena citar aqui a nota com que ele inicia a última parte do livro, Obras contra o Espiritismo:

Proibir um livro é sinal de que se o teme. O Espiritismo, longe de temer a divulgação dos escritos publicados contra si e proibir-lhes a leitura a seus adeptos, chama a atenção destes e do público para tais obras, a fim de que possam julgar por comparação (p. 85).

Eduardo Carvalho Monteiro, num dos textos escritos à guisa de apresentação, depois de mencionar as possíveis objeções à utilidade da publicação do Catálogo Racional, uma vez que a maioria das obras comentadas por Kardec não mais são editadas ou inexistem traduções em língua portuguesa, oferece o seguinte argumento como contestação:

Pensando dessa maneira simplista, poder-se-ia se conjecturar ser injustificável “ressuscitar” este Catálogo quase dois séculos após seu surgimento; no entanto, alguns aspectos não fugirão ao estudioso atento do Espiritismo e do seu desenvolvimento na História, principalmente se considerarmos que na análise dos duzentos livros relacionados por Kardec no Catálogo estão o seu pensamento, a sua análise crítica das obras precursoras, das favoráveis e das de oposição ao Espiritismo, publicadas em sua época. Trata-se, de fato, de acrescentar mais dados ao estudo do pensamento do Codificador do Espiritismo, o que nunca é demais, pois, em sua missão de reformador do pensamento religioso da Humanidade, sem dúvida que sua bagagem cultural deveria ser vastíssima, como foi, além de sua irrepreensível capacidade de análise e de discernimento do mundo intelectual que o cercava. E disse alguém alhures que, quanto mais estudamos as obras de grandes homens, maiores fachos de luz irão resplandecer (p. 7).

O Catálogo Racional: obras para se fundar uma biblioteca espírita, merece necessariamente um lugar na estante de qualquer estudioso tanto do Espiritismo quanto das religiões de um modo geral. Impõe-se, incontestavelmente, como obra de referência.