Leituras da Bel

Tudo é Poesia: Sophia de Mello Breyner Andresen

Por Juliana Guedes*

Desde a Antiga Grécia, Platão queria censurar os poetas na República. Ele sentia medo da poesia e de como ela poderia afetar os cidadãos, desvirtuando-os da realidade. O filósofo chegou a queimar os próprios poemas, para apagar qualquer rastro. Em contrapartida, neste século XXI, sentimos uma força infinita da escrita poética, diagnosticada na quantidade de poetas, no surgimento de mercados editoriais independentes, apresentando novos nomes e trazendo à superfície literária, autoras esquecidas e, consequentemente, afetando, com profundidade, o nosso entorno. Como novidade fortuita, estamos nos deparando, nas entradas de livrarias, com o feitiço das vozes femininas. Quem aqui tem medo de poesia escrita por mulher? Fico imaginando se Platão fosse vivo, o que ele me responderia. Sophia de Mello Breyner Andresen, importante poetisa portuguesa do século XX, morta em 2004, aparece nas prateleiras de 2018, numa seleção muito cuidadosa, feita pelo também poeta Eucanaã Ferraz.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A antologia, intitulada “Coral e outros poemas”, contempla do primeiro ao último livro de poesia de Sophia, a poemas inéditos da escritora. Os versos são alimentados de um mistério extasiante, mas escritos numa sintaxe clara e até direta. É perceptível um diálogo com a cultura clássica, podemos citar algumas figuras como: Apolo, Baco, Níobe, Dionísio, Ovídio, Eurídice, Electra etc.

Sophia de Mello Breyner Andresen

No entanto, o destaque da poesia de Sophia é definitivamente o oceano. Nós, leitoras, enxergamos palavras oníricas, criadas a partir do espaço do mar, dos animais marinhos, das pegadas na areia, da sensação do vento, do cheiro da maresia, da força das ondas, do contato com as conchas e os búzios. A escritora prescreve, também, constantemente, um jogo dual entre a vida na cidade e a vida junto ao mar: “Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,/ Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,/ Saber que existe o mar e as praias nuas,/ Montanhas sem nome e planícies mais vastas […]”.

Durante a leitura da antologia, percebemos as modulações poéticas de Sophia de Mello Breyner Andresen, como por exemplo, as indagações sobre a própria criação da poesia, a postura interrogativa ante a página em branco a ser escrita e as relações com poetas da tradição portuguesa, tais quais: Camões, Fernando Pessoa, Cesário Verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Além disso, nós brasileiras, somos surpreendidas, nesta edição, com a apresentação inédita e na íntegra do conjunto de poemas denominado “Cristo Cigano”, no qual nos é revelado nos versos, o nome do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto. A amizade de Sophia com o escritor pernambucano surge durante uma viagem à Sevilha e mostra, a partir deste momento, um efeito modificador do que ela tinha produzido até o momento. Embora seja uma lenda espanhola, o “Cristo Cigano” fez a poetisa manifestar um sujeito lírico relacionado com a destruição da vida humana em nome da sacralidade cristã.

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Não esqueçamos que a autora foi militante presente contra a ditadura salazarista de Portugal, e atuou, inclusive, como deputada. Isto contaminou a sua poesia, revelando um olhar contundente, para além das paisagens marítimas e dos encantos da natureza.

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* Juliana Guedes é professora de literatura, desde 2012. Atualmente, é estudante de doutorado em literatura comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisa poesia portuguesa moderna e contemporânea. Escreve poemas e atua, também, como mediadora de leitura em projetos literários. Gosta de museus, pinturas e músicas clássicas. Ela assina, na primeira semana do mês, a coluna Tudo é Poesia no blog Leituras da Bel.

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