Ancoradouro

Homenagem a José

No alpendre da casa uma roda de camaradas discute sobre o que acabou de falar o candidato  na propaganda  eleitoral transmitida na televisão Telefunken. A conversa se desenrola emaranhada de concordâncias e discordâncias que parece não chegar a um consenso.

São José

Um homem magro, de tez queimada pelo sol, cigarro pendurado ao canto da boca, falava do compadre que morava pelas bandas do Alto Verde. Havia perdido a criação devido à seca, “a plantação  tinha queimado até o pé”, lamentava, meneando a cabeça, elevando a voz e prosseguia exaltando o plano de emergência do governo, “isso é que ainda livra os pobres da morte”, dizia.

“Mas tem pobre que hoje em dia não quer mais trabalhar, quer só esperar das autoridade o de comer”, dizia outro homem acocorado no peitoril. Apontando o dedo em riste para os demais lamentava: “tenho pena desses homi”.

“Ainda bem que tem carnaúba por essas bandas pra que os magricelos dos bezerros possam comer, porque ajuda dos coroné nunca chegou por aqui”, orgulhava-se o dono da casa que na redondeza  era conhecido como pobre-rico, isto porque nunca esteve na dependência dos políticos e fazendeiros da redondeza.

“A mulher da televisão falou que tem canto no Ceará que nem água tem para beber. E olhe que nem esperança de chuva os homens da Funceme tão dando”, informava um caboclo que continuava a fala cheio de esperança ao se lembrar que se aproximava o 19 de março.

No meio da animada conversa a dona da casa trouxe um bule de café esfumaçante e um pacote de bolachas doces deitado num prato de plástico azul, daqueles da merenda escolar. Como do nada apareceram  as crianças que levavam mancheias das bolachinhas à boca se divertindo entre  um empurrão e outro.

A prosa continuou, o assunto porém mudou. Agora versavam sobre o cemitério para anjinhos que um vereador da região empreendeu construir perto da casa onde estavam. “Isso é falta do que fazer”, sentenciou o mais velho da roda, “por que não fez isso ao menos longe da estrada dos carros grandes?”, questionou o idoso.

Aos poucos a prosa se desfez e a turma se enveredou, cada um para sua casa, sumindo na noite. O pequeno que escutava a conversa dos homens grandes, ao lado do pai, o dono da casa, agora encolhia-se ao fundo da rede, ouvindo abismado os respingos de chuva que há muito não eram escutados. E em seu coração se confirmou a certeza de que o dia de são José se aproximava e que, por isso, a chuva chegara e, com ela, a esperança de que tudo poderia ser diferente naquele lugar.

 

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