Ancoradouro

Publicitário critica propaganda do Governo estadual: “possível gatilho para depressão”

O publicitário Pádua Sampaio teve artigo publicado na editoria de Opinião de O Povo, desta quinta-feira, dia 17, criticando a propaganda do túmulo, publicada nas redes oficiais do Governo do Estado do Ceará. Na película de um minuto, uma mulher atribui a si o contágio do pai pelo coronavírus. A cena é dramática, gravada em um cemitério e chama a atenção por ter vindo ao ar neste período e não há dois meses, quando se multiplicaram os abusos em aglomerações durante a  campanha eleitoral.

Clique na imagem para assistir ao vídeo do túmulo.

Confira o Vídeo do túmulo feito pelo Governo do Estado do Ceará

Confira artigo de Pádua Sampaio

Vídeo do Túmulo: aqui jaz o bom senso 

Demonstrar empatia é fundamental para a efetividade de qualquer propaganda. Ou seja, compreender o público e o universo que o cerca. Tudo que não fez o Governo do Estado, ao lançar uma propaganda de fim de ano que mostra uma mulher, à beira de um túmulo, se culpando por ter transmitido Covid ao próprio pai, levando-o à morte.

Infeliz é um adjetivo generoso para a peça.

Primeiro, porque não é possível determinar com precisão a identidade do transmissor. Aliás, muitos não sabem nem como se contaminaram. Logo, tratar essa morte como um homicídio culposo causado pela própria filha é no mínimo macabro.

Também foram ignorados os danos psicológicos que a cena retratada pode causar àqueles que viverão o primeiro Natal sem a presença de entes queridos. O Brasil tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo. Uma mensagem com esse teor pode atuar como gatilho para a depressão, levando inclusive a mais perdas na mesma família.

No entanto, há de se reconhecer que foi uma estratégia um tanto quanto arrojada. Sobretudo porque o telhado é de vidro. Na campanha, o governo desconsidera que seu grupo político gastou milhões num hospital que só funcionou por cinco meses. E que respiradores ou foram adquiridos com sobrepreço ou foram pagos sem nunca terem chegado aos pacientes. Acrescente ainda as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público sobre o tema. É mais fácil supor que esses fatos desencadearam perdas de vidas na pandemia.

As aglomerações durante a última campanha eleitoral – inclusive com a presença do alto escalão do governo e prefeitura – também podem ter incrementado os números de infectados e de óbitos.

É preciso estar bastante confortável na cadeira para assumir este discurso na propaganda oficial, acusando justamente quem deveria ser protegido e quem pagou a conta por essa publicidade: o cidadão. Faltou apenas o comercial esclarecer como a protagonista contraiu o vírus. Talvez no mês passado, durante algum evento político? Ao apertar a mão de algum candidato contaminado? Quem vai saber.

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