Fora da Ordem

Em Olhos D’água, Conceição Evaristo expõe um Brasil que não pode ser invisibilizado

Olhos D’Água, de Conceição Evaristo 
Editora Pallas, 2015


Há na literatura de Conceição Evaristo um Brasil quase irreal para quem vive longe das zonas periféricas mais vulneráveis. É nesse Brasil, no entanto, que está o País de muita gente que sai para trabalhar todos os dias sem a certeza de que vai voltar para casa. Seja pela violência urbana, seja pelas intervenções policiais que especificamente ajudam a compor essa violência.

Para contar histórias da população negra periférica no Brasil, Conceição Evaristo se apega a mães, filhas, avós, amantes e toda uma população que não encontra as mesmas oportunidades de quem nasce nas chamadas “áreas nobres” das capitais. São essas as personagens que fazem Olhos D’água tão verossímil para parte da população brasileira quanto absurda para outra.

5 livros para ler em apenas um dia

Edição é da Pallas editora

O livro expõe a condição afro-brasileira sem rodeios e romantizações de um pedaço do Brasil que não se deixa invisibilizar pela sua grandeza, apesar de toda subalternização ainda forte, herança da condição escravista.

Nascida na favela de Belo Horizonte, Evaristo tem propriedade para traçar essas narrativas.

Precisou conciliar os estudos com o trabalho de empregada doméstica até concluir o ensino médio aos 25 anos e só depois reivindicar seu lugar na literatura brasileira.

São histórias de quem foi ensinado a “baixar a cabeça e dizer sempre ‘muito obrigado'”, como na música de Gonzaguinha. Histórias de Conceições, Marielles, Dandaras, de tantas outras. É tudo real demais, vulnerável demais, ainda que ficcional. É plural também.

Olhos D’água é, portanto, leitura essencial para entender esses Brasis a partir de quem sentiu e ainda vê a discriminação racial, de gênero ou de classe. Repleto de questões sociais e existenciais que ainda irão repercutir por muito tempo.

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