Leituras da Bel

Ao pé do ouvido: Baladas para Leitores e a perereca do Jorge Amado.

Por Lilian Martins*
Gabriela, cravo e canela
chega aos seus 60 anos de publicação, ainda, evocando suspiros por suas curvas adjetivais e despertando diferentes olhares ávidos por sua leitura nos mais variados formatos. A obra já foi lançada em áudiolivro, eBook, adaptadas três vezes para a televisão (1960, 1975 e 2012), para o cinema (1983), para os quadrinhos (1975) e até para a dança (2012). Curiosidades sobre a publicação não faltam, sobretudo, quando falamos do seu autor, o escritor baiano Jorge Amado.

Jorge Amado

Neste 2018, muitas são as homenagens ao célebre autor brasileiro e a esta que é uma das suas obras mais importantes. Publicado, em 1958, com capa de Clóvis Graciano e ilustrações de Di Cavalcanti, o livro narra o amor entre a retirante vinda da seca, Gabriela, e o árabe, Nacib, dono de um bar em Ilhéus. O enredo regionalista tece a crítica social ao coronelismo do Nordeste Brasileiro ao passo que evidencia as transformações sociais advindas da ascensão cacaueira na região baiana. Como numa releitura do Romantismo Alencarino de Iracema, Gabriela é descrita através do olhar estrangeiro em seu exotismo e nenhuma puerilidade:

“… no começo da viagem, a cor do rosto de Gabriela e de suas pernas era ainda visível e os cabelos rolavam sobre o cangote, espalhando perfume. Ainda agora, através da sujeira a envolvê-la, ele a enxergava como a vira no primeiro dia, encostada numa árvore, o corpo esguio, o rosto sorridente, mordendo uma goiaba”.

A cor do rosto de Gabriela, suas pernas, seu cangote, seu perfume, seu corpo esguio, sua boca sorrindo e mordendo, todos estes elementos conduzem ao sensualismo da personagem, posteriormente, retomados na personificação dos versos de Tom Jobim:

“Meu cheiro é de cravo
Minha cor de canela
A minha bandeira
É verde e amarela
Pimenta de cheiro
Cebola em rodela
Um beijo na boca
Feijão na panela
Gabriela
Sempre Gabriela”.

Escute na íntegra a canção “Gabriela” de Tom Jobim:

Quem também se encantou com a personagem e a cantou em melodias conterrâneas foi Dorival Caymmi que compôs “Modinha para Gabriela”, imortalizada na voz de, outra baiana, Gal Costa:

 

Jorge Amado

Entre as muitas homenagens rendidas a Jorge Amado, eis que um grupo de pesquisadores da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza decidiram batizar com seu nome uma nova espécie de perereca descoberta no sul da Bahia. A Phyllodytes amadoi foi descoberta, em 2015, no município de Una, na região cacaueira da Bahia, mas registrada apenas no fim do ano passado.

Considerada a menor entre outras espécies do mesmo gênero (Phyllodytes), a perereca Jorge Amado surpreende mesmo é no canto! Motivo este que impressionou até os pesquisadores, pois seu canto é um dos mais agudos, estratégia para conquistar as suas fêmeas. Provando mais uma vez a máxima “que tamanho não é documento”! Por isso lembre-se, a perereca do Jorge Amado embora pequena, canta alto, assim, como a sua voz escritural que bradava contra a injustiça e os descalabros da política brasileira. Neste janeiro fatídico para o povo brasileiro, “Gabriela, cravo e canela” é também um canto uníssono por dias melhores e mais rubros!

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*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”, vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por rádio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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