Leituras da Bel

Leia o texto “Meninos, cachorros, jardins e Robson Crusoé”, do escritor Bruno Paulino

Por Bruno Paulino*

Foto: O POVO

Rachel de Queiroz, na crônica Conversa de Menino, conta à história de uma conversa sua com um menino inteligente que lhe fez uma visita. Dizer menino inteligente será uma redundância?

Bom, o peralta era nascido num apartamento – narra à escritora – e confundia maçã com goiaba, pois não conhecia um jardim. Creio que ainda existem casas com jardins em nosso tempo. E realmente deve existir hoje uma infinidade de meninos que moram trancafiados em apartamentos ou em casas sem jardins, que não conhecem um pomar ou sítio.

O caso é que depois de aprontar algumas na residência de Rachel o menino sentou-se para conversar com ela. E foi indagado pela curiosa escritora: “do que ele queria ser quando crescesse?”, ao que prontamente respondeu sem titubear “queria ser cachorro”.

Daí confesso que fiquei admirado com a resposta do menino, por sua inteligência, sua sutil metáfora. Explico: até onde é de meu conhecimento, não era muito bem vinda naquela época da escrita da crônica (inicio da década de 1950) a ideia da morada de cachorros em apartamentos, aliás, ainda hoje, para muitos, não é. Ou seja, concluindo meu raciocínio – o menino queria ter liberdade, ser feito os cachorros que dormiam guardando os jardins, fora das casas e apartamentos apertados – apertamentos, sob a proteção romântica da lua. Tenho para mim que um jardim para uma criança – prenhe de imaginação – é sempre como a ilha de Robson Crusoé, personagem do romance de Daniel Defoe: um lugar misterioso e desconhecido a ser explorado. É como versou o poeta Carlos Drummond de Andrade – sozinho menino, leitor entre mangueiras – se referindo ao jardim de sua infância num poema-lembrança: a sua história ali era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Por fim, penso que o menino questionado por Rachel de Queiroz quando disse que ao crescer queria ser cachorro, ele na verdade queria simplesmente dizer que queria ser livre, ser na essência menino e morar longe de apartamentos.

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Bruno Paulino é cronista e aprendiz de passarinho

 

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