Alguém disse: “Mawlana não fala”. Eu disse: “Foi minha imaginação que atraiu essa pessoa; minha imaginação não lhe diz: “Como vais?” ou “Como estás?” Ela a atraiu sem palavras. Se é dessa maneira que minha realidade atrai e conduz a outro lugar, o que há de espantoso nisso? A palavra é a sombra da realidade e seu complemento. Se a sombra atrai, a realidade atrai mais ainda. A palavra é um pretexto: o que faz uma pessoa ser atraída por outra é a afinidade que as une, não a palavra. Assistir a milhares de milagres e prodígios sem desfrutar dessa parte de profecia e santidade, de nada serve. É essa correlação que produz a febre e a inquietação. Se na palha não houvesse um pouco de âmbar, ela jamais se sentiria atraída pelo âmbar; ambos têm uma homogeneidade invisível e oculta.
Mawlana Rumi
[Jálál al-Din Rumi, Mawláná. Fihi ma fihi: o livro do interior. Tradução Margarita Garcia Lamelo. – Rio de Janeiro: Edições Dervish, 1993, p. 29]
Embora não haja consenso sobre a questão de sua origem, se a alquimia surgiu primeiro na China ou no Egito do período helenístico, não há dúvida de que, no mundo ocidental, sua tradição remonta a este último local e época e que o grego foi a primeira língua em que os textos alquímicos foram elaborados. Assim, é curioso que, desde seu início, a alquimia helenística estivesse imbuída da crença de que devia sua origem a uma ciência sagrada e secreta de tradição judaica, ou hebraica. Uma das formas assumidas por essa crença, mas sem nenhuma comprovação histórica, era a criação de uma pré-história bíblica e mítica para a alquimia; uma outra era a frequentemente proclamada, mas historicamente não comprovada, afirmação de que os judeus eram os únicos que estavam na posse de um verdadeiro conhecimento alquímico.
Por outro lado, existe comprovação histórica de que, em meio aos alquimistas do período helenístico, havia vários adeptos judeus, um dos quais Maria, a Judia, considerada por eles como a fundadora de sua arte. Zózimo e outros constantemente se referem a Maria como a autoridade suprema, tanto em termos da teoria quanto da prática da alquimia, e seus ensinamentos, em muitos casos na forma de concisos aforismos, são citados como se fossem pronunciamentos proféticos.
Raphael Patai
[Patai, Raphael. Os alquimistas judeus: um livro de história e fontes. Tradução Maria Clara Cescato e Diana Souza Pereira. – São Paulo: Perspectiva, 2009, p. 99. – (Perspectivas / direção J. Guinsburg)]
Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser! Os trajetos dos viajantes coincidem sempre, em segredo, com buscas iniciáticas que põem em jogo a identidade. Também aí o viajante e o turista se distinguem e se opõem radicalmente. Um não cessa de buscar e às vezes encontra, o outro nada busca e, portanto, nada obtém.
Michel Onfray
[Onfray, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução de Paulo Neves. – Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 75]
Não há um Deus. Não, não há um Deus que venha nos socorrer e sarar nossas feridas nos momentos periclitantes da vida. O homem, em sua indigência, ao longo de milhares de anos tem criado deuses e mais deuses de acordo com suas necessidades e demandas. Tais deuses, admitamos, servem muito mais como consolo do que como intercessores eficazes na operação de milagres ou solução de demandas. As respostas eficazes às súplicas dos devotos e fiéis, é preciso dizer, são em número reduzido, talvez muito mais frutos do acaso e de algumas convergências de fatores fortuitos, do que qualquer outra coisa.
Um homem, – era naquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
Machado de Assis
[Assis, Machado de. Obra completa em quatro volumes: volume 3. Organização Aluízio Leite Neto, Ana Lima Cecilio, Heloisa Jahn. – 2.ed. – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p.584. v. – (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)]
Gente,
a demissão recente do professor Luís Eduardo Torres Bedoya (o “Lucho”), mestre em Bíblia, pela atual diretoria da Faculdade Católica de Fortaleza me chocou profundamente. Que empobrecimento para a exegese, para a hermenêutica, para uma compreensão libertária das sagradas Escrituras! Onde vai parar este expurgo???
Sinto que não posso me omitir. Eis no anexo o que me veio à mente…
Peço que divulguem ao máximo (só se concordarem com o conteúdo, é claro), pois quem cala, consente.
Com grande pesar e muita solidariedade com o companheiro Lucho e a sua família,
Carlo Tursi
Evidentemente Jesus existiu – assim como Ulisses e Zaratustra, e pouco importa saber se viveram fisicamente, em carne e osso, numa época precisa num lugar identificável. A existência de Jesus não é de modo nenhum comprovada historicamente. Nenhum documento contemporâneo do acontecimento, nenhuma prova arqueológica, nada de certo permite concluir hoje pela verdade de uma presença efetiva na articulação dos dois mundos abolindo um, nomeando o outro.
Não há túmulo, não há sudário, não há arquivos, com exceção de um sepulcro inventado em 325 por santa Helena, mãe de Constantino, muito dotada, pois também se deve a ela a descoberta do Gólgota e a do titulus, pedaço de madeira que traz o motivo da condenação. Um pedaço de tecido que a datação por carbono 14 atesta datar do século XIII de nossa era e que só um milagre poderia fazer com que envolvesse o corpo de Cristo mais de mil anos antes do cadáver putativo! Finalmente, três ou quatro vagas referências muito imprecisas em textos antigos – Flávio Josefo, Suetônio e Tácito -, certamente, mas em cópias feitas alguns séculos depois da suposta crucificação de Jesus e principalmente bem depois do sucesso de seus turiferários…
(…)
Quem é o autor de Jesus? Marcos. O evangelista Marcos, primeiro autor do relato das aventuras maravilhosas do denominado Jesus. Provável acompanhante de Paulo de Tarso em seu périplo missionário, Marcos redige seu texto por volta de 70. Nada prova que ele tenha conhecido Jesus em pessoa, é óbvio! Um contato franco e claro teria sido visível e legível no texto. Mas não se convive com uma ficção… Apenas se credita a ela uma existência à maneira do espectador de miragem no deserto que acredita na verdade e na realidade da palmeira e do oásis vislumbrados no calor abrasador. O evangelista conta então na incandescência histérica da época a ficção sobre a qual afirma toda a verdade, de boa-fé.
Michel Onfray
[Onfray, Michel. Tratado de ateologia: física da metafísica. Tradução Monica Stahel. – São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007, p. 97 e 103]
O Concílio Ecumênico Vaticano II afirma que “Maria avançou em peregrinação de fé” (Lumen Gentium, VIII, 58). Embora fosse toda de Deus na santidade de seu ser e na abertura de sua alma, mesmo depois de ter sido atingida pela graça de intimidade com o Filho e com o Espírito Santo, ela crescia na compreensão da verdade da fé. A compreensão progressiva incluía tanto o mistério e a missão de seu Filho quanto sua própria missão de mãe e de colaboradora. Maria ignorava as consequências de seu sim generoso. Apenas conhecia o essencial: seu filho era Filho de Deus e Salvador. Em consonância, as Escrituras dão a entender o conhecimento de Maria, de claridade em claridade, na condição de peregrina na fé.
Dom Edson de Castro Homem
[Homem, Dom Edson de Castro. Maria da nossa fé. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 33. – (Coleção arte e mensagem)]
E o Espírito se apressou até ele e o despertou. Deu a mão àquele que estava deitado inerte no solo, colocou-o firme nos seus pés, pois ele ainda não havia se erguido. Ele lhes deu meios de ter o conhecimento do Pai e a revelação de seu Filho. (…) Ele inspirou-os com aquilo que está na mente, enquanto fazia sua vontade.
O Evangelho da Verdade
[Apócrifos e Pseudo-epígrafos da Bíblia. Organização Eduardo Proença. Tradução Claudio J. A. Rodrigues. São Paulo: Fonte Editorial Ltda., 2005, p. 630]
Tinha concluído minhas orações matinais e me postara diante do computador quando um odor forte inundou a biblioteca. Aquele cheiro não me era estranho, embora eu não conseguisse, de imediato, identifica-lo. O móbile dependurado na janela começou a tilintar. Há alguns dias, por indicação de Dom Cristiano, eu adquirira um novo móbile e, conforme sua sugestão, pendurara na janela da biblioteca. O odor se tornou mais forte, bem mais forte. “Alecrim!”, exclamei com meus botões. Isso mesmo, era essência de alecrim o odor que recendia na biblioteca.
